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Nova rainha, velha corte

Muda ou não muda? Indagado, o eleitor disse e repetiu: muda, tudo ou quase tudo. Mas, quando declara em quem pretende votar, a grande maioria acaba escolhendo a continuidade para os governos estaduais e para a Câmara dos Deputados. Quando muito, mudam os prenomes, mas os sobrenomes seguem os mesmos de sempre. "Mas tem a Marina Silva e a nova política." Pois é.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2014 | 02h02

Conforme revelou o Estado no domingo a partir da compilação de pesquisas do Ibope em 18 Estados, dos 90 nomes de candidatos a deputado federal mais citados pelos eleitores, só três são estreantes nas urnas e não vêm de famílias de políticos. Dos 90, 51 já são deputados federais. Isso significa que, nesse universo, a taxa de reeleição seria de 57%. É alta, mas, pelo menos em tese, poderia haver renovação pelos outros 43%. Não há.

Dos 39 favoritos a se elegerem para a Câmara que não são deputados, 4 são ex-deputados federais. Sobram 35 novidades aparentes. Cerca de metade, 17, é de deputados estaduais que estão subindo a escada do poder em direção a Brasília. Sete dos 17 são parentes de políticos. Novas gerações de velhas famílias.

Sem os deputados de província, restam 18 candidatos a símbolos da renovação do Congresso. Não por muito tempo, se retirarmos da lista os 11 ex-vereadores, ex-prefeitos, ex-governadores e toda a análise combinatória de prefixos e sufixos de cargos públicos. Sobram 7, dos 90 originais, sem experiência prévia nas urnas. Mas um é filho de deputado, outro é neto de senador, uma é mulher de governador e o quarto é filho de senador. Restam três.

Quem são eles? Todos têm passagem pelo poder público: um policial, um ex-secretário municipal, um ex-secretário estadual.

Embora essa amostra não represente a totalidade do que deve vir a ser a nova Câmara - porque só estão computados nas pesquisas do Ibope os 5 mais citados de 18 das 27 unidades da Federação -, ela ilustra com perfeição como o poder instalado tende a se perpetuar, seja através das oligarquias familiares, seja através do uso da máquina pública como trampolim eleitoral.

As estradas que levam a Brasília têm mais pedágios do que quaisquer outras. Sem um sobrenome tradicional ou um título de cargo público no passaporte eleitoral, é muito difícil passar pelas cancelas do poder. São estruturas sedimentadas há décadas - ou há séculos, como demonstra Francisco Antonio Doria em seu livro sociogenealógico Os Herdeiros do Poder.

Eliminou-se o rei, mas o espírito de corte, o séquito que rodeia o soberano e dele busca favores, sobreviveu à República. Saíram duques e marqueses, entraram os políticos profissionais. Novos títulos, mesma hereditariedade dos cargos. Não é jabuticaba. Há "berries" também. Os Roosevelt, Bush e Clinton que o digam.

Na falta de uma reivindicação específica, convencionou-se dizer que as centenas de manifestações de rua de 2013 clamaram por mudanças nas estruturas de poder, no sistema de representação política e no processo decisório. Mas na hora de confirmar essa assunção na urna, a mudança vira problema dos outros. O eleitor se mostra alheio à pauta das ruas e vai de mais do mesmo.

Sobra a sucessão presidencial. Entre o neto do quase-presidente e a cria do ex-presidente, aparece Marina. Sem partido próprio, se propondo a governar com os bons (dos outros), é a encarnação do desejo difuso de mudança. A figura esguia, a determinação e o discurso lembram um personagem de Cervantes. Não se bate contra moinhos de vento, mas contra um castelo sólido e bem defendido.

Tem chance inédita de penetrá-lo e sentar-se na sala do trono. É tão favorita a conquistar o cetro simbólico do poder que sobram adesões. Todos imaginam-se aptos a tutelá-la. Nas finanças, na política, até na definição do que são comportamentos aceitáveis. Afinal, como dizia Sancho Pança, "ninguém governa sem o PMDB".

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