Presidente sem tempo para errar

O vice-presidente Michel Temer, que agora inicia um governo de transição de até 180 dias, com chances de se estender até as eleições gerais de 2018, conseguiu formatar um roteiro de programa para reequilibrar a economia e a recolocar no trilho do crescimento. O foco, conforme preconiza o novo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, a quem foram conferidos amplos poderes para executar a tarefa, se fecha no desarranjo das contas públicas. 

José Paulo Kupfer, O Estado de S. Paulo

12 de maio de 2016 | 10h29

Reverter os crescentes déficits fiscais, que ameaçam a solvência do Estado, ao levar a dívida pública a uma incontida e explosiva trajetória de alta, é o objetivo. Com isso, pretende-se restaurar a confiança dos agentes econômicos, abrindo espaços para a retomada dos investimentos e, na sequência, para o relançamento da economia. Para ser bem-sucedido, contudo, esse processo terá de vir acompanhado de indicações rápidas de que a vida cotidiana das pessoas vai melhorar.

Não se trata de missão impossível, mas são muitos os desafios a serem vencidos. Entre fatores favoráveis e desfavoráveis, o balanço dos riscos ainda resulta em incertezas. Tempo e tamanho do ajuste são os elementos críticos em jogo.

Ao comentar a suspensão do deputado Eduardo Cunha da presidência da Câmara, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski, lembrou que “o tempo do Judiciário não é o da política nem o da mídia”. É o caso de acrescentar que também o tempo da economia é outro. 

Para o novo governo, o prazo mais longo exigido para a correção dos desajustes não se encaixa, em princípio, no tempo da política. Não só porque se trata de um governo de transição, em que o tempo disponível é por definição mais estreito, mas também porque, se tem a vantagem de assumir como oposição a um outro rejeitado pela opinião pública, esta não lhe é inteiramente favorável. 

Conciliar a “agenda das ruas” com a composição de uma base parlamentar para aprovar em tempo hábil medidas que dificilmente deixarão de ferir interesses estabelecidos será o principal desafio. O vaivém no desenho e na formação do novo ministério, composto por um time com qualidade abaixo da prometida, dá a medida de quão complicado é resolver a equação.

O relógio que vai marcar o período de graça, no qual o novo governo terá de encontrar saídas para manter as expectativas positivas iniciais, começa a rodar agora e tem corda no máximo até setembro, quando o Senado deverá julgar a cassação definitiva da presidente afastada. O presidente interino não tem tempo para errar.

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