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Demanda. Fotógrafo Antonio Ferreira da Silva diz que clientela caiu na temporada de festas em Juazeiro LEONENCIO NOSSA/ESTADAO

Crise afeta festa do Padre Cícero

Aposentados deixam de ir à romaria em razão de atraso no 13º

Leonencio Nossa- Enviado especial, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 03h00

JUAZEIRO DO NORTE (CE)-  É tempo de angústia no semiárido e no agreste. Diante de uma seca de quatro anos, o Nordeste teme os anúncios de cortes de programas sociais que garantiram a renda dos mais pobres. Um termômetro da preocupação provocada pelo ajuste fiscal do governo é Juazeiro do Norte, no Ceará, uma das mais tradicionais praças do comércio popular. A Romaria de Nossa Senhora das Dores, uma das três festas do calendário dos devotos de Padre Cícero, no começo deste mês, foi atingida com a suspensão do pagamento, em agosto, da antecipação do 13.º dos aposentados. Quando o governo decidiu liberar o dinheiro, agora em setembro, muitos idosos tinham desistido de viajar.

Na festa deste mês, a Hospedaria Santo Expedito registrou uma ocupação menor que no mesmo período do ano passado. Dos 24 quartos, cinco ficaram vazios. Francisco Melo, dono do estabelecimento, afirma que um grupo de aposentados desistiu “na última hora”. “O pessoal desanimou quando o governo deixou de pagar a antecipação do 13.º”, lamenta a fretista Joseni Trajano dos Santos, 49 anos, organizadora de uma romaria de 30 pessoas que percorreu 1.915 quilômetros de Borborema, na Paraíba, a Juazeiro. 

Diante da falta de recursos em caixa, o governo não incluiu na folha de pagamento de agosto, paga até o início de setembro, o adiantamento de metade do 13.º. A lei prevê o pagamento no último mês do ano, mas há nove anos o repasse era feito nessa época. Com a repercussão negativa, o governo recuou da decisão e o dinheiro deverá ser pago nesta quinta-feira. Já a segunda parcela será liberada em dezembro. 

Espaço. O agricultor Felipe Willames dos Santos, 22 anos, não teve dificuldades, como ocorreu nos anos anteriores, de se aproximar do túmulo do “patriarca” na Capela do Socorro, no cemitério central da cidade. Com poucos fiéis no templo, ele conseguiu colocar os dois filhos, Lucas, de 3 anos, e Maria, de 2, em cima da lápide para fotografá-los. “Muita gente, principalmente o pessoal mais velho, desistiu de vir para cá na última hora”, afirma. “É um ano muito imprensado.”

Santos vive com a mulher e os filhos em um sítio em Passira, município do agreste pernambucano a 533 quilômetros de Juazeiro. Foram sete horas de viagem. A seca arrasou a última plantação de milho e feijão. No inverno deste ano, em março, ele voltou a plantar. A venda de pequenos animais e benefícios sociais recebidos pela família garantiram pelo menos a viagem deste ano. Os adultos pagaram R$ 150 cada um de passagem e R$ 40 de diária em uma pequena pousada com café da manhã e almoço. Os óculos escuros, uma versão popular de uma marca internacional, e o relógio dele foram comprados na romaria do ano passado. “Agora, está tudo apertado. A gente veio na dificuldade”, relata o agricultor.

Nelore de fibra. O fotógrafo Mariano Eduardo Bezerra, 53 anos, trabalha há 35 anos na praça da Igreja de Nossa Senhora das Dores. Ele conta que nas festas do tempo do governo Fernando Henrique Cardoso tirava diariamente cerca de 50 fotos de crianças e jovens montados em pequenos cavalos de madeira e couro. Na época do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o número de clientes passou para 100. Há um ano e meio, Bezerra investiu R$ 18 mil na compra de dois bois nelore e um cavalo manga-larga de fibra, estátuas de grandes dimensões. O movimento, porém, começou a diminuir. Ele diz que, no sábado e no domingo da romaria deste ano, fez apenas 20 fotos. 

Outro que também viu o número de clientes diminuir foi Antonio Ferreira da Silva, 48 anos. O fotógrafo relata que, na festa da celebração da morte de Padre Cícero, em julho, a redução de devotos já era visível. O jeito foi levar as estátuas de animais para vaquejadas de cidades vizinhas.

A comerciante de artigos religiosos Joana D’Arc Nunes, 50 anos, se queixa que investiu em mercadorias de preços superiores a R$ 50. Mas, na romaria deste ano, os devotos só demonstraram interesse em lembranças de R$ 1. “A crise atingiu foi muito o comércio”, afirma. “Não vendi terços bons, pratarias e cristais”, completa. “Não culpo só a Dilma pela crise. Ela está levando a culpa sozinha. O problema é maior, vem lá de fora e também daqui do sertão. A seca matou gado, acabou com a plantação dos devotos.”

A boa notícia para muitos romeiros veio no penúltimo dia da festa de Nossa Senhora das Dores. Em Brasília, o Bolsa Família ficou fora da lista de cortes anunciada pela equipe econômica.


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Em mês de romaria, público menor e comércio fechado

JUAZEIRO DO NORTE (CE)- Os organizadores da Romaria de Nossa Senhora das Dores, que reúne devotos de Padre Cícero, estimavam um público de cerca de 600 mil pessoas entre os dias 1o e 15 deste mês. A prefeitura calculou que metade esteve na cidade. O comércio contabilizou, nas últimas três semanas, 55 lojas fechadas. A redução do número de estabelecimentos e de devotos ocorreu, na avaliação de comerciantes, por três fatores: a crise financeira, a seca prolongada e o controle cada vez mais rigoroso em relação ao transporte de romeiros em paus de arara, nas rodovias federais de acesso a Juazeiro.

Leonencio Nossa-Enviado especial, O Estado de S. Paulo

21 de setembro de 2015 | 03h00

As mudanças também ocorreram no transporte dos romeiros. Vans, micro-ônibus e ônibus vão, aos poucos, dominando o mercado. Em tempo de crise, porém, muitos devotos só conseguem chegar a Juazeiro em pau de arara, uma viagem geralmente gratuita – caminhoneiros transportam romeiros sem cobrar, em homenagem a Padre Cícero.

Esse transporte continua apenas nas estradas estaduais ou de terra, sem o controle da Polícia Rodoviária Federal. “Foi difícil juntar dinheiro para pagar a minha passagem e dos meus três netos”, disse a diarista Maria Lúcia dos Santos, 42 anos, de Maceió. “Neste mês, perdi uma das três clientes que eu tinha. Meu orçamento caiu R$ 200.”

Raimundo Donato da Silva, 68 anos, foi um dos migrantes do êxodo dos anos 1970. Trabalhou anos em montadoras no ABC, em São Paulo, até voltar a Juazeiro em 1986 par abrir um bar. “No outro tempo, a seca obrigava todo mundo ir embora. Hoje não, com esses benefícios do governo, o pessoal fica pelo sertão.”

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