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Lourival Sant'Anna
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Nos rincões, aumento de crédito e poder aquisitivo unem classe C

Independentemente do nível de instrução, representantes desse grupo desejam a continuidade do governo Dilma Rousseff

Lourival Sant'Anna, Lourival Sant'Anna

07 Junho 2014 | 16h02

Manacapuru - Em Manacapuru, a 95 quilômetros de Manaus, o Ibope detectou grande concentração de eleitores da classe C, com renda familiar entre R$ 1.486 e R$ 3.630, independentemente de nível de instrução, que desejam a continuidade do governo Dilma Rousseff. Na cidade à beira do Rio Solimões famosa por seu Festival de Cirandas, o Estado teve facilidade de encontrar eleitores com esse perfil entre comerciantes, microempresários, agentes de crédito, funcionários municipais e aposentados.

No efervescente comércio da cidade, as razões mais citadas são a maior facilidade de crédito e o aumento do poder aquisitivo dos mais pobres, com suas repercussões benéficas sobre a economia local. O programa Luz para Todos, bastante presente nas áreas rurais da Amazônia, e a renovação da Zona Franca de Manaus, defendida pelo governo no Congresso, também são motivos.

Há sete meses, esse otimismo levou Edcarlos Almeida, de 33 anos, a abrir com o irmão uma distribuidora de bebidas usando o capital acumulado com a pesca nos Rios Solimões e Purus, no barco de seu pai. “Desde o Lula até a Dilma agora foi um governo bom”, disse ele, que cursou até o 1.º ano do ensino médio. “Não estou dizendo que foi ótimo, mas está sendo bom. A questão das crises melhorou um pouco. Para o povo do interior, que é na batalha mesmo, melhorou muito. Deu muitas fontes de renda para o pessoal. Estão tendo mais condições de comprar as coisas.”

‘Dindinzinho’. “Antigamente, a gente ia nesse interior aí, a crise era feia”, lembra Almeida. “Hoje, os cabras dá para parar mais cedo de trabalhar, acordar mais tarde um pouquinho, não com intenção de ser preguiçoso. Dá para comprar feijão, açúcar, café, porque todo mês cai o dindinzinho”, observa o comerciante e pescador, sem saber apontar ao certo quais programas do governo são responsáveis por essa renda.

Seu xará Edcarlos Magalhães, também de 33 anos, cursou o magistério, mas em vez de virar professor investiu em uma joalheria. “Dilma foi uma governante boa: Bolsa Escola, Bolsa Família, não tiraram, deixaram para as pessoas que têm necessidade”, avaliza. “Se viesse outra pessoa do PT, eu também votaria. A melhor opção que tem hoje seria ela.”

Magalhães explica como o programa de transferência de renda ajuda em seus negócios: “Aqui é bom porque quem recebe Bolsa Família pode comprar alguma coisa para os filhos. Sendo que é para alimentação, para a escola, mas, se puder comprar um brinco, uma pulseira, compra. Então, isso é melhor para mim.” E há o aumento do salário mínimo também, que afeta diretamente os aposentados e outras categorias. O comerciante estima, de cabeça, que tenha sido de “quase 15%”. Foi de 6,8%.

“O salário mínimo tem melhorado um pouquinho, mas tem que melhorar bastante ainda”, pede Adriana Amorim, de 24 anos, que trabalha em uma financeira e faz bastante crédito consignado para as classes D e E (renda familiar abaixo de R$ 1.486). “O mandato da Dilma está sendo razoável. Mais pelo que ela faz pelas pessoas de baixa renda. Esses programas que ela tem são bem interessantes, como o Bolsa Família e um outro que não estou lembrada no momento.” Ela votou em Dilma em 2010 e votará de novo neste ano.

Armando Ribeiro, que fez até a 5.ª série, trabalha na joalheria de Magalhães, seu primeiro emprego formal, aos 62 anos. Sempre trabalhou como vendedor ambulante e por isso só agora está contribuindo com o INSS. Seu sonho é conseguir a aposentadoria. Além do emprego, ele tem uma barraca de lanches e faz churrasquinho à noite com a mulher. Sua renda familiar está no piso da classe C - em torno de R$ 1.500.

Mas sua filha de 16 anos recebe Bolsa Família, que contempla famílias com renda per capita inferior a R$ 154. Aparentemente, um resquício da fase em que estava totalmente na informalidade. Ribeiro, que votou em Lula duas vezes e uma em Dilma, diz que o benefício caiu de R$ 170 para R$ 140. “Se a eleição fosse hoje, eu votaria na Dilma porque pelo menos ela ajuda com a Bolsa Família.” Ele diz não tem nenhum outro motivo. “Na saúde, só vejo queixa, não tem nada no hospital”, testemunha. Sua mulher seria operada de uma hérnia em Manaus poucos dias depois da entrevista.

Comércio. Beneficiários do Bolsa Família também compram roupas na butique que Socorro Franco tem há 20 anos. “Dilma ajudou muito os pobres. Isso ajudou muito o comércio aqui”, destaca. “As pessoas carentes, que não podiam comprar roupa, eu vendo para elas pagar com o Bolsa Família. Elas vão pagando. Eles compram muito de mim, muitas pessoas carentes.” Antes de Dilma, ela votou em Lula e gostou dele também.

“Os programas do governo ajudaram muito nos negócios”, reconhece o vendedor Manuel Lopes, de 48 anos, citando a facilidade de crédito. “Esse governo olhou muito para o lado social”, continua Lopes, que trabalha com consórcios de motocicletas, automóveis e imóveis. “O microempresário se desenvolveu bem no município.”

O vendedor lembra que votou em Fernando Henrique Cardoso antes da eleição de Lula, em 2002. “Observei que ele viu mais o lado empresarial, enriquecendo o empresário, do que o social. Apesar de ser sociólogo, ele não teve essa visão. Deixou a desejar. O Lula se reelegeu e a Dilma está para se reeleger também porque quem elege esse pessoal é o pobre, é outra classe. A classe rica é 5% da população.”

Sem ser indagado sobre os escândalos, Lopes justifica: “Corrupção tem em todo governo. Mas a família brasileira melhorou. Muitas famílias estão se dando bem porque todo mês têm a sua Bolsa Família. É um incentivo. Não resolve, mas ajuda”.

Elisa Queiroz tem uma visão ainda mais positiva desse tema: “Gosto da Dilma porque é contra a corrupção, põe em cima mesmo”, diz. “Acho que ela é a única pessoa que pode. Não tem outra, porque o Lula não está”, explica Elisa, de 40 anos, vendedora de cosméticos. “Os negócios estão melhorando”, conta ela, cujo marido tem um caminhão para transporte de areia. “O governo deu mais condições, facilitou o crédito e criou o Luz Para Todos.”

O programa é citado também por Carlos Teles, de 51 anos, dono de açougue. “Dilma fez alguma coisa pelo Amazonas. Desde a época do Lula que o Amazonas se desenvolveu.” Ele também cita o apoio do governo federal à renovação e ampliação da Zona Franca. “Vamos ser beneficiados, porque Manacapuru vai ser da Região Metropolitana de Manaus.” Teles, que cursou ensino médio, afirma também que o negócio do açougue melhorou bastante. “As pessoas estão comprando mais carne.”

Desejo divino. Como se observa também em outros lugares, alguns eleitores não escolhem seus candidatos por interesses práticos, mas por identificação pessoal. “Eu queria votar por mulher para ver se dava melhor que os homens”, lembra Nilda Teles, de 87 anos, sobre sua escolha de Dilma em 2010. “Para mim, o Lula não foi mau. Mas vamos experimentar uma mulher para ver se é boa - é assim que eu dizia.” Ela confessa que não sabe “nem como é que vai” a presidente. “Um pessoal fala contra, uns falam por ela. Ou ela presta ou não, vou votar nela de novo. Vamos ver Deus o que faz. Se ela merecer, Deus vai colocar a Dilma de novo.”

Quanto ao valor da aposentadoria, Nilda se mostra compreensiva com o atual governo: “Falam que é pouco, mas ela sabe o que está fazendo. Sei que se eu pedir mais ela não vai poder dar, porque tem um monte para ela socorrer”. Ela recebe também a renda do aluguel de uma loja adjacente a sua casa, construída por seu marido, mestre de obra aposentado.

Luz Marina Athayde, de 44 anos, funcionária do setor de protocolo da prefeitura, também se mostra muito identificada com a presidente: “Além de ser uma mulher no poder, representando a nossa classe, ela tem administrado o Brasil assim, com mãos de ferro. Só tende a melhorar cada vez mais”, acredita. “A gente confia muito no trabalho dela. Só em ela ter continuado o Bolsa Família, que tem ajudado muitas pessoas de baixa renda. O Brasil tem se desenvolvido muito.” A funcionária, que cursou magistério e antes de Dilma votou em Lula, acredita até mesmo que, “em matéria de violência, tem melhorado bastante”. / L.S. 

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