DIDA SAMPAIO/ESTADÃO
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Nos planos de Janot, férias e compliance

Procurador-geral da República quer tirar o peso do cargo e poderá se aposentar no ano que vem

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2017 | 05h00

BRASÍLIA - Há um ano o mineiro Rodrigo Janot fazia um plano sobre o que faria nesta segunda-feira, 18 de setembro de 2017: andar por Belo Horizonte “sem disfarces” e sem o peso de ser o procurador-geral da República. Ao imaginar o dia seguinte ao fim de seu mandato, ele não contava com o que viria nos próximos 12 meses – e, especialmente, nos últimos 15 dias dos quatro anos de sua gestão.

Cinco meses depois de assinar o polêmico acordo de delação com o Grupo J&F, que o fez travar uma guerra com o Planalto, Janot teve de reconhecer que errou. Na reta final, disse ter sido traído por um de sua equipe e dado benefício demais a quem merecia de menos.

Dentro da PGR, a narrativa com o fim do acordo e a prisão de Joesley Batista é de redenção, mas nos bastidores é grande o temor de que Janot e os mais fiéis de seu grupo virem alvo na Justiça. O que antes era um risco distante se transformou em aposta concreta. Por isso, Janot deve estender seu período no Ministério Público. A previsão é de que só se aposente depois de abril e continue até lá com foro perante o Superior Tribunal de Justiça (STJ). Assim, se protege de ações judiciais esparsas pelo País.

Janot deixou como seu ato final a denúncia contra o PMDB da Câmara – na qual acusa o presidente Michel Temer de liderar uma organização criminosa. Um dia depois, o PGR viveu suas últimas 24 horas úteis no cargo e seu 61.º aniversário.

Para comemorar o fim do mandato e do inferno astral que se avizinhou, Janot organizava desde março a festa para o seu gabinete. O cardápio desta sábado, 16, foi programado para agradar ao mineiro, que aprecia cozinhar e conversar em volta de uma mesa: tutu de feijão e feijoada, cerveja, cachaça e caipirinha da vodka.

Janot nunca teve afeição pela área penal, tendo atuado antes na defesa do meio ambiente e do consumidor. No início da Lava Jato, quis estabelecer que as multas das delações fossem destinadas à construção de presídios. Não emplacou.

A Lava Jato foi, também para Janot, arrebatadora. Curitiba avançou rápido e enviou a Brasília a delação de Paulo Roberto Costa no fim de 2014. Saiu daí a primeira leva de investigações contra políticos – a “primeira lista do Janot” – que gerou depois denúncias contra o ex-presidente Fernando Collor e o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

No mesmo ano, Janot viveu sua primeira crise com a suspeita de que tramava um “acordão” para salvar as empreiteiras. Assumiu então um tom ainda mais belicoso: “Quer saber até onde nós vamos? Pergunte a eles (corruptos) até onde foram. É até lá que nós vamos”.

No aniversário de três anos da Lava Jato, em março deste ano, Janot tinha uma tranquilidade: “Antes eu achava que era o fim do mundo. Agora eu sei que o mundo não acaba”. Dez dias depois de Joesley gravar Temer, Janot também tinha uma certeza: “Hoje, 17 de março, está se desenvolvendo um outro esquema (de corrupção)”.

Janot prometeu usar a caneta até o último dia para disparar suas flechas e não economizou tinta. Dos seis presidentes da República do Brasil desde a redemocratização, vivos, só um escapou de uma denúncia: Fernando Henrique Cardoso. Collor, José Sarney, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva e Temer foram acusados nas investigações da Lava Jato.

Usou tanto a tinteiro alemã da marca One, em madeira antiga, que teve de aposentá-la depois de assinar as 77 delações da Odebrecht. Virou peça de decoração.

Rumo à Europa. Ao falar sobre o futuro, Janot se diverte com as especulações sobre uma pretensão política imaginando qual partido o convidaria, depois de investigar caciques das principais siglas.

A ideia do procurador é trabalhar na área de compliance – a advocacia de prevenção aos crimes de colarinho branco. Mas, por ora, Janot quer “descansar”: viajar para a Europa, enfrentar a quarentena, voltar à companhia da família e desviar das flechas – que agora podem se voltar contra ele.

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