Nos EUA, político corrupto tem bens leiloados

Na última quinta-feira, enquanto a deputada petista Ângela Guadagnin, de São Paulo, comemorava em Brasília a absolvição por seus pares de mais um político corrupto de seu partido, dançando no plenário da Câmara dos Deputados, o ex-deputado americano Randy "Duke" Cunningham, que cumpre pena de mais de oito anos de prisão a que foi condenado no mês passado por crime de corrupção, teve seus bens leiloados pela receita federal americana. A venda dos móveis, tapetes, pratarias e outros objetos do ex-congressista republicano da Califórnia rendeu apenas US$ 94.625. É uma fração do US$ 1,5 milhão que ele foi condenado a pagar de imposto de renda, além do tempo de cadeia, por conta dos US$ 2,4 milhões que aceitou de fornecedores do Pentágono para favorecer contratos na comissão de orçamento e dotações da Câmara. O leilão da casa e dos barcos e do Rolls Royce que o ex-deputado recebeu em propinas ajudará a reduzir sua dívida com o fisco.O contrate entre os dois episódios mostra que, embora a cultura da corrupção esteja entranhada tanto nos Estados Unidos como no Brasil, os políticos americanos apanhados no ato de usar os postos que ocupam em proveito próprio não ficam impunes como seus colegas brasileiros. Mostra, também, que a punição vai muito além da perda de mandato. Nas últimas três décadas, mais de duas dúzias de congressistas e outros políticos dos EUA foram julgados, condenados e cumpriram penas de prisão. Antes de Cunningham, o caso mais notório foi o do ex-deputado Daniel Rostenkowski, democrata de Chicago. Político arrogante, Rostenkowski estava há 36 anos no Capitólio e era o todo-poderoso presidente da comissão de orçamento e dotações da Câmara quando foi indiciado por corrupção. O caso, que em 1994 ajudou os republicanos a conquistar o controle que ainda detêm do Congresso, custou 17 meses de cadeia e uma multa de US$ 100 mil ao ex-deputado.Segundo as pesquisas de opinião, os escândalos que rondam o ex-líder republicano da Câmara, o outrora também todo-poderoso deputado texano Tom DeLay, e vários parlamentares conservadores - sem falar da impopularidade do próprio presidente George W. Bush, por causa da guerra do Iraque - operam agora a favor da retomada do controle pelo menos da Câmara de Representantes pelos democratas, nas eleições de novembro próximo.A situação de Delay complicou-se ontem com uma nova revelação, feita pelo Washington Post, sobre a rede de corrupção do ex-super lobista republicano Jack Abramoff, um aliado próximo do ex-líder que confessou vários crimes e hoje colabora com a justiça, na esperança de reduzir a pena de até 30 anos a que pode ser condenado.De acordo com informações que o Post obteve junto a investigadores federais, o ex-chefe de gabinete de Delay, Edwin A. Buckham, e sua mulher, Wendy, embolsaram mais de US$ 1 milhão dos US$ 3 milhões que Buckham angariou como presidente da U.S. Family Network, uma organização supostamente sem fins lucrativos que ele montou para promover "os valores da família" na agenda do Congresso. A receita do grupo veio, em sua maior parte, de clientes de Abramoff.DeLay, que foi forçado a renunciar à liderança da bancada republicana, é candidato à reeleição em novembro. Mas a probabilidade de que acabe na cadeia é hoje maior do que a que permaneça no Capitólio, se for reeleito. O escândalo que envolve seu ex-chefe de gabinete mostra que cerco está se fechando em torno de DeLay, que já enfrenta um julgamento separado no Texas por crime de violação das leis de financiamento de campanha do estado.

Agencia Estado,

26 de março de 2006 | 13h49

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