TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Nos EUA, crianças morrem mais em Estados pró-armas

Estudo aponta que óbitos de menores de 19 anos são duas vezes maiores em Estados onde legislação é mais branda

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2018 | 05h00

Citado pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), como um dos países modelo de legislação pró-armas, os Estados Unidos registram duas vezes mais mortes de crianças nos Estados com leis que facilitam o porte de armamentos.

A conclusão é de um estudo da Escola de Medicina da Universidade de Stanford e que será apresentado na próxima segunda-feira, 5, na conferência anual da Associação Americana de Pediatria, em Orlando.

Para avaliar o impacto da legislação armamentista na morte de crianças e adolescentes americanos, os pesquisadores levantaram o número anual de óbitos por disparo de arma de fogo nessa faixa etária e o cruzaram com o chamado índice Brady, que mede o grau de restrição das legislações estaduais referentes a armamentos – nos EUA, diferentemente do Brasil, cada uma das 50 unidades da federação têm autonomia para aprovar suas próprias leis sobre esse e outros temas.

Os pesquisadores verificaram que, anualmente, cerca de 2,7 mil crianças ou adolescentes morrem no país vítimas de disparos de arma de fogo. Fazendo ajustes estatísticos para corrigir discrepâncias de renda, emprego e escolaridade, os cientistas concluíram que, nos Estados onde a legislação de armas é mais branda, morrem o dobro de crianças em comparação ao número de óbitos nos Estados onde as leis são mais restritivas.

Para efeito de comparação, cerca de 9 mil crianças e adolescentes morrem no Brasil por ano vítimas de armas de fogo, número que, segundo pesquisadores da área, poderia ser ainda maior se as políticas de desarmamento fossem suspensas no País. No Atlas da Violência 2018, os analistas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) atribuem ao Estatuto do Desarmamento (em vigência desde 2003) a interrupção “da corrida armamentista que estava impulsionando mortes violentas no País”.

Outros resultados. Os pesquisadores americanos verificaram ainda, em outro estudo, que o número de crianças hospitalizadas por ferimentos provocados por armas de fogo também é maior nos Estados com normas mais permissivas em relação às armas.

“Lesões por armas de fogo são a segunda maior causa de morte de crianças nos Estados Unidos, mas encontramos uma clara discrepância sobre onde essas mortes ocorrem, o que corresponde à força das legislações estaduais de armas. Em Estados com leis mais brandas, crianças morrem em taxas alarmantemente maiores”, declarou, em nota, Stephanie Chao, professora de cirurgia pediátrica de Stanford e uma das autoras do estudo. “Mais crianças morrem de ferimentos relacionados a armas de fogo do que de câncer e doenças cardíacas. Cada uma dessas mortes poderia ser evitada. Nosso estudo demonstra que a legislação estadual impede que as crianças morram por armas”, completou a pesquisadora.

No estudo, os pesquisadores ressaltam que, do total de mortes de crianças e adolescentes registradas no país por essa causa, 62,1% foram classificadas como homicídios e 31,4%, como suicídios.

Polêmica

A legislação pró-armas de alguns Estados americanos já foi alvo de críticas de autoridades políticas, como o ex-presidente Barack Obama, e entidades de direitos humanos. A polêmica ganha força a cada episódio de massacre registrado naquele país. No mais recente ataque, registrado no último dia 27, um atirador matou 11 pessoas em uma sinagoga em Pittsburgh. / COLABOROU MARCO ANTÔNIO CARVALHO 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.