Nos EUA, Dilma terá 'agenda do futuro'

Em encontro com Obama, presidente deixará para trás crise gerada pela espionagem americana para se concentrar em novos acordos

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, Dilma ROusseff; EUA;

26 Junho 2015 | 02h03

Quando se encontrarem em Washington na terça-feira, os presidentes Dilma Rousseff e Barack Obama darão sinais de que viraram a página da crise gerada pela espionagem dos Estados Unidos e que estão prontos para colaborar em uma série de temas, entre os quais o combate à mudança climática terá papel central. Também anunciarão a intenção de dobrar o comércio bilateral em dez anos, no momento em que o Brasil olha para além de suas fronteiras em busca de oxigênio para sua economia. O encontro terá, como prioridade, o futuro da relação entre os países.

Com apenas dois meses de preparação, a agenda da visita será uma colcha de retalhos, com acordos de facilitação de comércio, defesa, educação e ciência e tecnologia. O anúncio em relação ao clima foi a maneira encontrada pela Casa Branca de alinhar a visita às prioridades internacionais de Obama e vincular a relação bilateral a uma questão global.

O americano trabalha para deixar um legado nessa área e pressiona outros países a assumirem compromissos ambiciosos na conferência sobre o clima em dezembro, em Paris. Os EUA gostariam que o Brasil adotasse posição semelhante à da China e anunciasse metas de redução de emissões ao fim do encontro bilateral, mas isso não deve ocorrer. Segundo uma fonte brasileira, o País não tem intenção de divulgar seus compromissos de Paris nos Estados Unidos.

"Essa é uma oportunidade para Brasil e Estados Unidos mostrarem liderança global nessa área", disse o diretor para o Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional (CSN) da Casa Branca, Mark Feierstein. Segundo Ben Rhodes, também do CSN, há outros caminhos para os governos manifestarem comprometimento com o tema além das metas de redução de emissões.

Em conversa por telefone, o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, disse ontem a Dilma que o convite de Obama reflete o compromisso de realizar o "enorme potencial" da parceria entre os dois países. De acordo com nota da Casa Branca, Biden "enfatizou a importância de trabalhar com o Brasil e outros parceiros para produzir um acordo robusto sobre o clima em dezembro", além de ressaltar a relevância econômica da facilitação de viagens entre os dois países.

Espionagem. Dilma cancelou visita de Estado que faria a Washington em outubro de 2013 em protesto contra as revelações de que a Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) espionou suas comunicações. A presidente exigiu um pedido de desculpas e a garantia de que as ações não voltariam a se repetir.

Rhodes disse ontem que os EUA não têm a "prática" de se desculpar por atividades de vigilância, mas ressaltou que Obama implementou mudanças na NSA. Entre elas, a orientação de que líderes de outros países só serão espionados quando houver uma questão específica relacionada à segurança americana.

"Nós reconhecemos que a relação EUA-Brasil passou por um período turbulento depois das revelações relativas às atividades de inteligência dos EUA", afirmou Rhodes. Mas ressaltou que a visita é uma indicação de que os países "viraram a página" e decidiram avançar. Outro sinal é a ação do Brasil em áreas que estavam paralisadas, como a cooperação na área de defesa. Com atraso de cinco anos, Dilma enviou para ratificação do Congresso dois acordos assinados com os EUA.

A América Latina estará na pauta, com destaque para a reaproximação entre os EUA e Cuba e a crise na Venezuela. "Quando Brasil e Estados Unidos trabalham bem juntos, isso permite que os países das Américas trabalhem bem juntos", disse Rhodes.

Em anos recentes, os dois países divergiram em questões regionais, mas a mudança da política dos EUA em relação a Cuba reduziu as fontes de atrito. O Brasil também assumiu postura menos tolerante em relação a Caracas. "A base para qualquer abordagem de longo prazo dos Estados Unidos em relação ao hemisfério é a relação EUA-Brasil."

Para o assessor de Obama, a expectativa da Casa Branca é a de que a visita inicie um "novo capítulo" no relacionamento Brasil-EUA. Com fluxo de US$ 100 bilhões - comparados a US$ 250 bilhões com o México -, o comércio bilateral é a "promessa não cumprida" nessa relação, observou Rhodes. Não há acordo de livre comércio na pauta, mas uma série de anúncios podem elevar a cifra no futuro próximo.

 

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