Nos anos 90, projeto de pesque e pague em Santa Maria fracassa

Projeto fracassado pôs embaixo da terra cemitério dos jagunços; hoje vale guarda espécies nativas

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 20h33

O Contestado repetiu Canudos não apenas na barbárie, mas na memória da guerra. O centro de Belo Monte, o arraial de Antonio Conselheiro, na Bahia foi inundado pelas águas da represa de Cocorobó, nos anos 1960. Santa Maria, a "cidade santa" de Adeodato e Maria Rosa, em Santa Catarina, foi tomada por tanques para reprodução de tilápias e carpas, num projeto fracassado de pesque-pague, nos anos 1990. Ficaram de baixo da água o cemitério dos jagunços, onde montoeira de corpos foram enterrados sem identificação.

 

 

Os morros em volta do lugar onde existia Santa Maria, o vale que Adeodato pensou ser a fortaleza perfeita para deter o avanço das tropas legais, ainda guardam espécies nativas como aroeiras, marmeleiros, caúnas, araucárias, goiabeiras selvagens, mamicas de cadela e pimenteiros. O cemitério e o lugar onde ficavam a praça e as casas do reduto santo estão hoje dentro da propriedade partícula, praticamente abandonada. O silêncio do lugar só é interrompido por quero-queros, no pasto da beira do lago, e bem-te-vis, que dão voos rasantes nas águas da represa.

 

Não há placas de referências no caminho para se chegar à antiga cidade dos rebeldes. Em Santa Maria de Baixo, lugar onde vivem algumas famílias remanescentes de caboclos, mora a agricultora Norilda Soares, 48 anos. Ela e o filho Eduardo propõe levar a equipe do jornal até o local onde ocorreu o massacre dos caboclos. "Quando a gente era criança, encontrava muitas cascas de fuzil no mato", lembra Norilda.

 

Depois de percorrer 13 quilômetros de estrada de chão, interrompidas por portões (como chamam aqui as porteiras de madeira), cancelas (feitas de arame) e colchetes (de varas entrelaçadas), a equipe do jornal chega a Santa Maria do Meio, o lugar exato onde existiu o reduto de Adeodato e Maria Rosa.

 

Durante o caminho, Eduardo fala das plantações de feijão, do casamento recente com Ivone e gravidez da mulher. Com 33 semanas de gestação, Ivone teve hepatite. Eduardo conseguiu uma carona e a levou para Florianópolis, numa viagem arriscada de cerca de 400 quilômetros. Ele conta que em Timbó Grande e mesmo nas cidades de Caçador e Curitibanos, as maiores da região, não existem hospitais especializados. A comunidade de Santa Maria do Meio não dispõe nem mesmo de posto de saúde.

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