Nos anos 70, Camões contra a censura

Segundo pesquisadora, tesoura atingiu 1.136 textos do ''Estado''

, O Estadao de S.Paulo

04 de agosto de 2009 | 00h00

"As armas e os barões assinalados." Camões e seu famoso cântico, Os Lusíadas, que exalta a coragem dos navegadores lusos talvez nunca tenham sido tão populares no Brasil quanto entre março de 1973 e janeiro de 1975, em pleno regime militar. Naquele período o Estado era submetido diariamente à censura prévia e, para denunciar aos leitores e à sociedade a presença de censores em suas oficinas, publicava versos do poeta português no lugar de matérias cortadas. Confira especial sobre as páginas do ''Estado'' censuradas no regime militarNo total, segundo a pesquisadora Maria Aparecida de Aquino, que tratou do assunto em sua tese de mestrado na USP, a tesoura dos censores atingiu 1.136 textos do Estado - 655 substituídos por versos de Camões - entre março de 1973 e janeiro de 1975.Antes de recorrer aos versos do escritor português, os editores do Estado publicavam cartas sobre rosas. Nas reproduções ao lado, é possível observar como isso ocorria. Era uma notícia sobre o diretor do jornal, Julio de Mesquita Neto, que, em 1974, ao receber o prêmio Pena de Ouro, da Federação Internacional dos Editores de Jornais em Copenhague, aproveitou para denunciar as arbitrariedades do governo brasileiro.Na primeira versão, à esquerda, aparece o pronunciamento do diretor no qual afirmava que, "para um jornalista, agradecer um prêmio concedido por jornalistas é sempre uma tarefa embaraçosa. Ela se torna mais difícil ainda quando esse prêmio tem como justificativa a atividade desenvolvida numa luta que para todo jornalista independente é inseparável do exercício digno da profissão: a defesa da liberdade de imprensa". A reportagem foi vetada, restando apenas a manchete. Ao lado, os versos do Canto Primeiro, que a substituíram, denunciando a censura.

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