Nomes da TV testam prestígio na política

Luiz Datena e João Doria Jr. se lançam para a Prefeitura de São Paulo, disputa que já tem outro midiático, Celso Russomanno

Pedro Venceslau e Valmar Hupsel Filho , O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2015 | 05h00

A pouco mais de um ano das eleições municipais, a disputa em São Paulo ganhou destaque na semana passada com a entrada de dois personagens inusitados no cenário. Sem vida orgânica partidária e nem experiências políticas no currículo, o jornalista José Luiz Datena, âncora do programa policial Brasil Urgente, da Band, e o empresário João Doria Jr., apresentador do programa de entrevistas Show Business, da mesma emissora, se apresentaram como candidatos, respectivamente pelo PP e PSDB.

Caso sejam confirmadas as devidas candidaturas, Datena e Doria se somam ao deputado Celso Russomanno (PRB-SP), que na semana que vem estreará quadros em dois dos programas de maior audiência da TV Record, o vespertino Cidade Alerta e o matutino Hoje em Dia.

A avaliação entre especialistas é de que o trio surfaria na crise de credibilidade dos partidos políticos e disputaria votos no mesmo campo conservador que em outros tempos elegeu Paulo Maluf, Celso Pitta e Ademar de Barros - e que na última eleição presidencial deu sustentação ao PSDB.

"Os três correriam na mesma faixa. Disputariam o eleitorado conservador e que está desiludido com a política. Essa divisão poderia favorecer o prefeito Fernando Haddad, que busca os votos dos redutos petistas na periferia", avalia o cientista político David Fleischer, professor da Universidade de Brasília.

O professor Aldo Fornazieri, diretor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), lembra que esse tipo de fenômeno costuma acontecer em momentos de profunda crise política e institucional. Nesse cenário, segundo ele, o eleitorado tende a aceitar bem o lançamento de candidaturas de pessoas que se tornaram exemplo bem-sucedido fora do meio político. “É o caso, por exemplo, do ex-executivo da Coca Cola, Vicente Fox, que se tornou presidente do México e Silvio Berlusconi, homem de mídia e de negócios que se tornou primeiro-ministro na Itália”, diz o professor.

O anúncio de Datena e Doria foi feito no momento em que os grupos defensores do impeachment da presidente Dilma Rousseff intensificam a convocação para as manifestações contra o governo marcadas para o próximo dia 16, cujo epicentro será na Avenida Paulista.

Alheios às teorias políticas e à geografia do voto na capital, os novos pretendentes aproveitam o sentimento antipetista em São Paulo e fazem coro às críticas ao prefeito Fernando Haddad (PT), que concorre à reeleição. E se mostram entusiasmados com os protestos, apesar de apresentarem discursos cautelosos quando questionados sobre a proposta de pedir o impeachment da presidente Dilma Rousseff, bandeira que unifica os manifestantes.

'Cansei'. Filiado ao PSDB desde 2000, João Doria Jr. liderou em 2007 o movimento "Cansei", que reuniu empresários e artistas em uma "cruzada" contra a corrupção. Em 2015, porém, ele afirma que não estará mais na linha de frente.

“O Cansei foi a vanguarda desse movimento de hoje. Na época ele foi criticado pelo presidente Lula e por aqueles que estão encastelados no Palácio do Planalto que achavam o mensalão normal”, diz o empresário.

"As manifestações de agora terão muita influência na eleição de 2016. Eu vou participar como fiz nas outras duas. Fui como cidadão ao lado da minha família, sem fazer proselitismo e discurso", conclui Doria Jr.

Mas quando questionado sobre o impedimento da presidente, a resposta é protocolar. “O antipetismo cresceu em São Paulo por um conjunto de razões ligadas às administrações municipal e federal. Mas defendo a legalidade e as opções que a lei faculta”, afirma. 

Sem nunca ter entrado em um diretório zonal do PSDB na capital paulista nem ter disputado antes nenhum cargo eletivo, João Doria Jr. diz que aposta na experiência na TV para fazer a diferença. "Não é o comício, a carreata e a passeata que definem a eleição, mas o tempo e desempenho de TV, no programa e nos debates. Aqueles que são oriundos da TV têm uma performance mais forte."

Antes de anunciar sua decisão, Doria Jr. consultou todos os caciques do PSDB e diz ter e recebido carta branca para seguir em frente. Mas faz uma ressalva. "O (senador tucano José) Serra me disse que não sai candidato. Ele foi bem peremptório, mas se mudar de ideia, eu desisto. Os dois senadores, ele e Aloysio (Nunes Ferreira), têm prioridade." 

Tumulto. Uma das principais estrelas da TV Record, o deputado Celso Russomanno afirma que não participará da manifestação do dia 16 por uma razão prática. "Não é simples para mim sair na rua. Minha presença criaria um tumulto. As pessoa me veem como um artista e param para pedir autógrafo.", diz ele.

Líder de um partido que integra a base da presidente Dilma Rousseff na Câmara, o PRB, o deputado-apresentador se diz contra o impeachment. "Neste momento não existe amparo legal para isso." Depois de liderar as pesquisas quase até o final da campanha de 2012 e ser abatido após virar alvo de petistas e tucanos, Russomanno se mostra otimista e afirma que o cenário eleitoral será diferente no ano que vem. "Eu ultrapassei o chamado cinturão vermelho. Muita gente que vota no PT, vota no Russomanno", pontua, falando na terceira pessoa.

Único até agora a ser anunciado por seu partido como candidato, ele aposta na pulverização do voto por meio de uma presença maciça na TV Record, emissora ligada à Igreja Universal e à sua legenda, o PRB. Emparedado pelas máquinas estadual e municipal na hora de buscar apoio partidário, ele conta com o próprio recall - em 2014, foi o deputado federal mais votado do País, com 1,5 milhão de votos - para se manter bem posicionado nas pesquisas e compensar o diminuto tempo de TV.

Retórica. Datena também tentará traduzir em votos a popularidade conquistada nos programas diários. Mal anunciou sua intenção em estar na disputa, ele já ensaia uma retórica de candidato semelhante àquela adotada nos programas. O alvo, claro, é Haddad. “É idiotice reduzir a velocidade nas marginais”, disse, ressalvando que fala como cidadão.

Na TV e no rádio, garante que vai evitar falar de política daqui para frente. “Serei cuidadoso”, disse. “Seria injusto se fizesse isso. Seria ferir a ética”. Depois de virar notícia com o anúncio de sua intenção de concorrer à Prefeitura, Datena se recolheu. Na última quinta-feira, disse que os dirigentes do PP o aconselharam a não tocar mais no assunto. 

Adversários

"Seria injusto se fizesse isso (falar de política em seus programas de TV e rádio). Seria ferir a ética"

José Luiz Datena

JORNALISTA

"Não é o comício, a carreata e a passeata que definem a eleição, mas o tempo e desempenho de TV, no programa e nos debates. Aqueles que são oriundos da TV têm uma performance mais forte"

João Doria Jr.

APRESENTADOR DE TV

"Eu ultrapassei o chamado cinturão vermelho. Muita gente que vota no PT, vota no Russomanno"

Celso Russomanno

DEPUTADO FEDERAL (PRB-SP)

"Os três correriam na mesma faixa. Disputariam o eleitorado conservador e que está desiludido com a política. Essa divisão poderia favorecer o prefeito Fernando Haddad, que busca os votos dos redutos petistas na periferia"

David Fleischer

CIENTISTA POLÍTICO

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