Werther Santana/Estadao
Werther Santana/Estadao

Nomeações de magistrados na Lava Jato e Mãos Limpas são distintas, diz analista

Para a economista Maria Cristina Pinotti, que estuda casos de corrupção no Brasil e na Itália, convites a Moro e promotores italianos partiram de motivações diferentes

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

08 Novembro 2018 | 05h00

A nomeação do juiz Sérgio Moro, um dos magistrados da Operação Lava Jato, para o Ministério da Justiça pelo presidente eleito Jair Bolsonaro, guarda distinções importantes com os convites feitos pelo ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi a procuradores que participaram da Operação Mãos Limpas. A avaliação é a da economista Maria Cristina Pinotti, estudiosa dos dois casos.

A principal diferença, na opinião da economista, reside no fato de Berlusconi ter chegado à política como um empresário já suspeito de irregularidades no ramo de mídia e construção civil, enquanto Bolsonaro, ex-militar, fez carreira no Congresso sem acusações do gênero, ainda que ambos tenham inclinações populistas.

“É preciso tomar um enorme cuidado nesse tipo de comparação. Não tem nada a ver uma coisa a outra porque o Berlusconi é um cara muito diferente do Bolsonaro”, diz. “Estava envolvido em várias falcatruas e entrou para a política para escapar da cadeia. Tem que separar quem era o Bolsonaro e quem era o Berlusconi.”

Outra diferença, diz Maria Cristina, é o quanto cada operação avançou nos seus respectivos países. Para a economista, a Lava Jato alcançou resultados maiores e mais duradouros que a Mãos Limpas. “Se você pegar os ataques que a Lava Jato sofreu, até agora a operação sobreviveu sem revezes”, afirma. “Estamos muito à frente da Itália.”

A pesquisadora acredita que o pedido feito por Moro para ter carta branca no ministério e a abrangência da “superpasta”, que deve acolher, entre outros órgãos, o Coaf, deve colaborar para que o combate à corrupção passe da punição de casos já existentes para a criação de mecanismos de controle para evitar novos escândalos. Um deles é a rapidez na detecção de lavagem de dinheiro.

“O Moro participou desse primeiro pilar (o da punição) e ao sair da Lava Jato ele dá um passo além”, afirma. “Temos que analisar como montar um sistema eficaz. Temos informações no Coaf que caem no vazio. Precisamos modernizar o combate à lavagem de dinheiro.

Maria Cristina não vê problemas na concentração de tantas atribuições no novo ministro, bem como críticas feitas por outros magistrados sobre a ausência de uma “quarentena” na transição de Moro da magistratura para o Poder Executivo e faz um paralelo com o Plano Real. “Para promover uma mudança você tem que ter um “Plano Real” da corrupção. Ali você também concentrou poderes”, conclui.

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