Nomeação de Tarso para pasta da Justiça gera insatisfação

Setores da Polícia Federal (PF), a oposição na Câmara e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) anunciaram que vão cobrar com intensidade e ficar "muito atentos" à atuação do novo ministro da Justiça, Tarso Genro.Lideranças dessas instituições disseram manter "relações cordiais" com Tarso, mas avisaram que não pretendem abrir mão de reivindicações e garantias que não teriam sido cumpridas e acatadas durante o primeiro mandato do governo Lula.É o caso da PF, revelam delegados ouvidos pelo Estado. "Nossa cobrança é pela autonomia da PF e independência funcional", disse Armando Rodrigues Coelho Neto, presidente da Federação dos Delegados da PF. "Se Tarso Genro não tiver essa visão realmente vai ter problema na PF e não será bem-vindo." O ministro é advogado, formado na década de 70, mesma época em que iniciou sua militância política no Rio Grande do Sul. "Estamos cansados e fartos do uso político da PF", avisou Coelho Neto. "Não estamos fazendo prejulgamento, mas a gente espera que ele seja simpático à nossa bandeira pela independência. Estamos preocupados com a visão política que Tarso possa ter em relação à PF."PerfilAo escolher o petista para o lugar do jurista Márcio Thomaz Bastos, o presidente Lula optou pela troca de alguém de perfil mais técnico por um político de viés fortemente partidário. Tarso, que tomará posse na sexta-feira, 16, terá sob seu controle um orçamento de mais de R$ 5 bilhões para este ano. A PF, subordinada ao Ministério da Justiça, conta com 13 mil policiais cuja performance ajudou Lula a se reeleger.Gaúcho de São Borja, Tarso, de 50 anos, foi duas vezes prefeito de Porto Alegre. Após um período de exílio no Uruguai, em razão de processo na Justiça Militar, retornou ao Brasil e instalou-se em Porto Alegre, onde abriu escritório de advocacia, trabalhando para sindicatos de trabalhadores.O delegado Coelho Neto salientou que o novo ministro será "muito cobrado" pelo cumprimento de um acordo que os delegados firmaram com o governo prevendo correção salarial da categoria em duas parcelas de 30%. A primeira parcela foi quitada em meados de 2006. A segunda deveria ter sido depositada em dezembro, mas não foi. "Enrolaram a gente", declarou o delegado.O presidente da OAB, Cézar Britto, disse que mantém ótimas relações com o novo ministro, mas foi taxativo ao cobrar respeito às prerrogativas dos advogados e exigir o fim da invasão de escritórios e dos grampos telefônicos. Ele destacou que a instituição "não aceita qualquer medida que transforme o Estado brasileiro em um Estado policial, em que se entende que tudo se resolve com a ação da polícia"."A OAB espera que não se repitam fatos como invasões de escritórios de advocacia e grampos de telefone", acentuou Britto, referindo-se às operações da PF no primeiro mandato de Lula que levaram para a prisão advogados sob suspeita de lavagem de dinheiro e aliança com o crime organizado. Britto ressalvou que as relações com Tarso, que presidiu a OAB nos anos 80, "são muito cordiais".OposiçãoA oposição na Câmara viu com restrições a indicação de Tarso, que antes de ser indicado para a pasta já fez declarações que desagradaram aos partidos - como a defesa do uso maior de plebiscitos e referendos em questões que julga de interesse da sociedade."É um histórico que assusta, principalmente porque tem a PF sob sua subordinação", declarou o deputado Rodrigo Maia (PFL-RJ). "A nomeação de um ministro da Justiça com esse perfil não é bom para o País."O líder do PSDB, deputado Antonio Carlos Pannunzio (SP), considerou que, no passado, Tarso não demonstrou a isenção política que um ministro da Justiça precisa ter.O vice-líder do governo na Câmara, Henrique Fontana (PT-RS), afirmou que o novo ministro reúne todas as condições para o cargo. "Ele tem uma longa trajetória na área jurídica, aliada a uma capacidade de gestão muito qualificada", disse.Para ele, Tarso provou sua capacidade de gestão nas várias missões que desempenhou desde o primeiro mandato de Lula, entre as quais o comando do Ministério da Educação. Fontana considera "preconceituosas" as críticas ao perfil partidário do novo ministro. "Militância partidária não retira das pessoas seu saber jurídico nem a capacidade de agir com o equilíbrio necessário."

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