Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

No templo, à espera do milagre

Enquanto Nossa Senhora não atende ao pedido por uma casa, Nina vive com a família em antigo local de culto evangélico, no cortiço chamado Esqueleto

Roldão Arruda, de O Estado de S.Paulo

30 Junho 2012 | 16h00

Noite quente e abafada. À 1 hora, Nina, o marido e os três filhos embarcam no ônibus mal conservado e saem sacolejando pelas ruas da Vila Monumento, região do Ipiranga, zona sul. Fitando as luzes e o movimento dos carros pela janela, ela relaxa o corpo na poltrona e pensa que tomou a decisão acertada quando aceitou o convite para a excursão ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, a santa de sua devoção. Sonha com essa visita desde os tempos da meninice em Arara, interior da Paraíba.

Às 4h10, o motorista do ônibus acende a seta para a direita, deixa a Rodovia Presidente Dutra e embica para a direita, na direção de Aparecida, a meio caminho entre São Paulo e Rio. Os romeiros acordam e às 6h estão todos na basílica, na primeira missa do dia.

Quando o culto termina, saem em grupo, excitados como crianças, para o fundo da igreja, encontrar o que mais lhes interessa, a imagem original da santa, achada no Rio Paraíba. Nessa hora Nina sente um calorão pelo corpo inteiro, tira os chinelos e avança descalça pelo piso frio. Diante da Aparecida, sente vontade de chorar, reza, ergue os braços e faz um pedido: que a santa lhe ajude a realizar o maior sonho de sua vida, a conquista da casa própria.

"Foi só isso que pedi", recorda, ao contar a viagem, feita em janeiro. Sua voz é baixa, calma, e o sorriso, quase triste. De repente levanta, atravessa a sala, passa entre as camas dos filhos, segue até o guarda-roupa do casal e se põe a procurar alguma coisa no meio de pilhas de roupas e sacolas.

Templo. Nina é o apelido de Damiana Paulino Barbosa, empregada doméstica, de 33 anos. O lugar onde mora não tem paredes divisórias. É um salão de cerca de 25 metros de comprimento por 5 de largura, pé-direito alto, fiação e encanamentos expostos. Apesar de grande, tem só duas minúsculas janelas basculantes, no espaço da cozinha, o que torna o lugar escuro e úmido. O problema é agravado pelo fato de o salão ficar abaixo do nível do solo: duas paredes são cobertas de terra.

À noite, Nina desamarra duas cortinas de pano que passam o dia presas à parede. Uma separa o quarto dela e os dos filhos, outra isola a sala e a cozinha. Antes da mudança da família, o salão abrigou um templo evangélico. Ao fundo, à direita da porta de entrada, ainda se vê a elevação de tijolo e cimento usada como púlpito. Hoje está coberta de objetos metálicos, restos de construção, peças de motor e recicláveis que o marido, José Roberto Alves, de 40 anos, recolhe na rua para revender.

"O pastor cobrou R$ 3 mil, à vista, pra deixar o lugar", conta Nina, ainda revirando o guarda-roupa. "Como a gente não tinha, pediu para um conhecido nosso que empresta a prestação. Se cobra juro? Claro."

O pagamento em dia facilitou um novo empréstimo, quando Roberto concluiu que precisava de um carro para fazer a reciclagem render mais. Pediu R$ 4.500 e comprou uma Kombi, para recolher material e fazer carretos. "Já pagamos tudo. Até a última prestação."

O filho caçula, Isaac, de 2 anos, é incansável. Brinca com Pitchula, cachorra de ar fidalgo, recolhida na rua; equilibra-se sobre o material reciclável; arrasta de uma ponta a outra do salão um carrinho barulhento; grita. Quando os irmãos, Italo, de 12 anos, e Ingrid, de 15, chegam, tenta atraí-los para as brincadeiras, sem sucesso. Os dois preferem se revezar no computador que ganharam no Natal.

Nina encontra o que busca, um embrulho branco. Rasga o papel e deixa surgir uma enorme réplica da Aparecida. "Trouxe para meu irmão", diz. Depois põe a imagem sobre uma cômoda, pega Isaac e lhe oferece o peito. O irmão dela mora numa favela na Vila Sônia, zona sul, e vai gostar do presente, imagina Nina. A voz parece de satisfação toda vez que fala da romaria, que terminou à meia-noite, quando o ônibus retornou à Vila Monumento, à Rua Vigário João Álvares, 77.

Esqueleto. Ali, num cortiço vertical, de quatro andares, conhecido como Esqueleto, amontoam-se 64 famílias, com 134 crianças. Nina e Roberto chegaram há quatro anos, depois que ele ficou desempregado e não conseguiram mais pagar R$ 700 mensais pelo aluguel de dois cômodos na Bela Vista, no centro. "Outro irmão meu, que mora numa invasão em Osasco, falou que o pastor queria passar o lugar. Somos novos aqui. Tem gente que chegou no começo."

O começo foi a invasão do edifício, pertencente ao INSS, 20 anos atrás. O nome, Esqueleto, deve-se ao fato de ter sido invadido quando não passava de uma estrutura de concreto, sem paredes.

A vizinhança, de classe média, constitui o maior desgosto de Nina. "Quando passo na rua, me olham de cara feia, como se eu fosse bandido, mendigo, sei lá", lamenta. "Será que não sabem que a maioria das pessoas aqui trabalha, estuda, cria os filhos e só não mora num lugar melhor porque não consegue ajuda?"

Ela chora nas duas vezes em que toca no assunto. Quando se acalma, enumera as tentativas fracassadas que ela e o marido já fizeram para realizar o sonho da casa própria. Um dos problemas é a dificuldade para comprovar a renda.

"Quero um lugar meu, um lugar pra viver sem medo de despejo, da água ser cortada", explica. "Fiquei desesperada no Natal, quando vieram cortar a água, porque a mulher que tinha recolhido o dinheiro não pagou a conta. Já pensou: Natal sem água e com criança em casa?"

O corte não ocorreu por causa da interferência do padre Antonio Naves, vigário da Paróquia Rainha dos Apóstolos, que intercedeu junto à Sabesp.

De acordo com estatísticas oficiais, os assentamentos precários, como favelas, invasões e cortiços, ocupam 10% do território da cidade e abrigam 30% da sua população. O Esqueleto está nesse meio.

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