No Senado, café é sinônimo de lobby

Antes reservado, local agora vive cheio

Rosa Costa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

27 Outubro 2007 | 00h00

No cafezinho do Senado há oito mesas, cada uma com cinco cadeiras. Dois acessos levam até lá: o elevador privativo ou pelo plenário. É lugar dos mais reservados no Congresso, longe dos holofotes e das câmeras dos jornalistas. Na semana passada, os senadores Jefferson Péres (PDT-AM) e Garibaldi Alves (PMDB-RN) chegaram em horários diferentes e não encontraram lugar. Tomado por lobistas e curiosos, o local parecia uma feira. Wilson Picler, diretor-presidente do que ele diz ser um grupo educacional de ensino à distância (Uninter), ocupava duas cadeiras. Uma para sentar e a outra para acomodar pastas. Picler disse que aguardava os senadores Osmar Dias (PDT-PR), que negou a informação, e Cristovam Buarque (PDT-DF). "É verdade, sou eu quem mais usa aquele local", disse Cristovam, apontando para a mesa onde estava Picler. O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) atribui as cenas que se tornaram comuns no local aos cinco meses em que o presidente licenciado da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), resistiu em deixar o cargo. "Tudo concorreu para puxar a liturgia para baixo." "Aquilo ali ficou irrespirável, há três lobistas para um senador, ficou o pior dos cantos", avalia Demóstenes Torres (DEM-GO). "É o cafezinho da desordem", acrescenta Sérgio Guerra (PSDB-PE). Um senador vai ao banheiro. Antes, checa se não há o risco de ser acompanhado por um lobista, que não perdoa nem esse momento. "É um absurdo", reage Pedro Simon (PMDB-RS). "Em lugar nenhum do mundo há lobista no plenário e no cafezinho." Papaléo Paes (PSDB-AP) diz que há muito se queixa da invasão do cafezinho. "Perdemos a nossa privacidade, extrapolou." Há lobbies para todos os gostos. Recentemente, o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, deu plantão no local. Seu assessor trazia os senadores do plenário para acomodá-los na "mesa" de Teixeira. Cerca de 20 parlamentares contam ter ouvido o pedido para boicotar a CPI do Corinthians, sob a alegação de que a investigação poderia comprometer a campanha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014. O senador Osmar Dias (PDT-PR) conta que o local também tem atraído "moças bonitas". Os atendentes do cafezinho lembram especialmente de Mônica Veloso, antes de ficar famosa pela relação com Renan, sem nunca suspeitarem que ela viraria personagem da história do Senado.

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