No Rio, Serra critica gastos púbicos e loteamento de cargos

Pré-candidato tucano à Presidência disse que, se eleito, fará, 'de cara', a reforma administrativa do Estado e prometeu reduzir cargos comissionados

Luciana Nunes Leal / RIO - O Estado de S.Paulo

14 Maio 2010 | 20h39

Na primeira visita ao Rio para compromissos como pré-candidato do PSDB à Presidência, o ex-governador José Serra demonstrou desconfiança nesta sexta-feira, 14, em relação ao corte de mais de R$ 10 bilhões no Orçamento da União, para desaquecer a economia, e atacou duramente o que considera loteamento de cargos no governo, em especial na área da saúde e nas agências reguladoras. O tucano disse que, se eleito, fará "de cara" a reforma administrativa e prometeu reduzir cargos comissionados (que não dependem de concurso público).

 

Serra disse não ter meios para analisar os cortes anunciados pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Precisa ver se é corte de verdade, se é espuma", respondeu. "Se tiver desperdício para cortar, tudo bem. Cortar coisas essenciais não. Vamos ver o que eles dizem", disse o tucano.

 

Ex-ministro da Saúde, Serra citou o exemplo da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) para atacar o aparelhamento estatal do governo Lula. "A Funasa foi destruída, ficou no chão", afirmou, em entrevista ao Programa Francisco Barbosa, da Rádio Tupi. Durante almoço na Associação Comercial do Rio de Janeiro, Serra voltou ao assunto e disse que, no atual governo, as agências reguladoras "foram pervertidas porque foram loteadas politicamente".

 

Em meio a negociações do PSDB com partidos aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que têm cargos no governo, como PTB e PP, Serra avisou que não aceitará indicações de políticos. "Estou aberto a alianças, mas o pessoal sabe o que penso. Nunca aceitei indicação. Quando um deputado ou senador me dizia que tinha um nome, em respondia "então não me fala, porque não será nomeado".

 

Durante a visita ao Rio, Serra deu entrevistas a duas rádios populares e à emissora de TV católica Rede Vida, além de falar durante uma hora e meia para os empresários reunidos na Associação Comercial. Foram quase quatro horas de declarações sobre os mais variados temas. O pré-candidato voltou a dizer que, se eleito, será o "presidente da produção" e fez uma série de promessas na área de segurança e educação. Disse que estuda a criação de um braço fardado da Polícia Federal, para atuar nas fronteiras e reprimir o tráfico de armas e drogas.

 

Apesar dos ataques ao inchaço da administração pública, Serra evitou confronto com o presidente Lula e disse que nunca viu a oposição como inimiga, mas adversária. Questionado sobre o possível acirramento do confronto com a pré-candidata do PT, Dilma Rousseff, Serra respondeu com bom humor. "Já ouviu Lupicínio Rodrigues? Eu tenho nervos de aço. Não saio do prumo."

 

Pré-candidato ao governo do Rio pelo PV, em aliança com PSDB, DEM e PPS, o deputado Fernando Gabeira também esteve na Associação Comercial, mas reiterou que, na disputa presidencial, pedirá votos para a senadora Marina Silva e não para Serra. "No meu programa de TV aparecerão Serra e Marina pedindo votos para mim. Não participarei do programa de Serra. Se for convidado, participarei do programa da Marina", disse Gabeira. O deputado afirmou ter ido à Associação Comercial para discutir as questões do Rio de Janeiro e disse que voltará quando a convidada for a candidata do PV. (Colaborou Felipe Werneck)

 

A seguir, os principais temas abordados por Serra na viagem ao Rio.

 

Irã - "Eu não teria uma relação fraterna, de amigos queridos, porque lá trata-se de uma ditadura que condena à forca manifestantes contra o governo. Já pensou se a gente fosse fazer isso no Brasil, mandar para a forca?"

 

Oposição - "Nunca vi a oposição como inimiga mortal, na base do Fla-Flu, do Palmeiras-Corinthians. Oposição não é um inimigo que tem que ser arrasado, é um adversário que, no período eleitoral, tem que ser vencido."

 

Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) - "O PAC 1 vai te que ser tocado pelo próximo governo federal, que não é o Lula. O Lula vai estar fora. O PAC previa R$ 106 bilhões e executou 13% ou 14%."

 

Reforma tributária - "Infelizmente este governo não fez, o anterior também não. Ninguém fala contra, mas cada um tem uma ideia. O projeto do governo ficou pior ainda. Virou uma sopa de pedra, cada setor queria pôr uma pedrinha."

 

Ministro da Saúde, José Gomes Temporão - "O atual ministro é um homem decente, razoável. Ele não pode fazer muita coisa na Funasa porque é tudo prato pronto, está tudo loteado."

 

Presidente Lula - "Eu não tenho ódios. Pessoalmente me dou muito bem com Lula. Ele já declarou que o Brasil vai estar bem com o candidato que for eleito. Lula não é candidato, não tenho por que debater com Lula, mas com quem deseja sucedê-lo."

 

Royalties do pré-sal - "Eu defendi que este tema não entrasse este ano. Levar ao Congresso em ano eleitoral é semear a discórdia nacional, é guerra civil. A ideia que o Estado produtor não receba royalties especialmente porque produz é completamente absurda."

 

Segurança - "O governo federal tem que, se for o caso, criar uma força especial fardada que poderá estar sob o comando da Polícia Federal ou não. Nem que tenha que mudar a Constituição, o governo federal tem que assumir responsabilidades e ser o coordenador desta luta."

 

Parcerias com o Rio - "Não tenho a menor dificuldade em trabalhar com o governador do Rio, com o prefeito da capital e os outros prefeitos. O trabalho em parceria é da minha natureza."

 

Metrô - "O Rio e o entorno precisam ter muito mais metrô. Estou confiante em levar o metrô para São Gonçalo e Itaboraí. É essencial, em parceria com o governo do Estado."

 

Ditadura - "Nunca me envolvi na luta armada, o que nunca foi impedimento para a repressão."

 

Comissão da Verdade - "Deve se saber tudo que aconteceu. Do ponto de vista jurídico, o Supremo já decidiu, com apoio do governo Lula, que entrou com essa tese de que não dava para mexer na Lei da Anistia. Se reabrir o que já prescreveu, vai ter uma confusão muito grande de um lado e de outro."

 

Cria - "O Fernando Henrique é um ex-presidente que vota em mim, eu não sou cria do Fernando Henrique. A Dilma é de certa forma cria do Lula, mas eu tenho uma história."

 

Plano de Direitos Humanos - "É um plano de tortos humanos. Criminaliza quem é contra o aborto. Não se pode considerar como contrário aos direitos humanos quem é contra o aborto. É inacreditável isso. Segundo: ameaça a liberdade de imprensa. Sou defensor dos diretos humanos e fui vítima de repressão política duas vezes, no Brasil e no Chile. Sei o valor disso. Querem controlar a mídia, aí se inventa isso. Se política-eleitoralmente pega mal, aí mudam."

 

MST - "Acho boa a reforma agrária. A prioridade é reforma agrícola. Acho que o MST está usando a reforma agrária como pretexto para uma ação política, de linha radical, meio defasada no tempo, atrasada."

 

Belo Monte - "Isso deveria ter sido deixado para adiante, para ter um processo de discussão melhor. Foi uma coisa meio atropelada, talvez por causa da questão eleitoral. A questão ambiental não foi esgotada. Inicialmente ia ser privado, virou estatal. Não se sabe direito o custo."

 

PMDB - Teria (um ministro do PMDB). Mas eu escolho. Tem muita gente boa no PMDB.

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