No Rio, máquina eleitoral alimenta favoritismo de Paes

Prefeito montou aliança de 20 partidos, tem mais da metade do tempo de propaganda e lidera em arrecadação de recursos

Alfredo Junqueira, de O Estado de S.Paulo - ampliada às 11h53

24 de setembro de 2012 | 03h05

Com 20 partidos na coligação, 75% dos candidatos a vereador, mais da metade do tempo de TV e uma avaliação positiva que ultrapassa 50%, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), montou uma máquina eleitoral poderosa e é favorito para vencer a eleição na cidade já no primeiro turno. Seu principal concorrente, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), ainda não rompeu a barreira dos 20% nas pesquisas eleitorais. Semalianças partidárias, faltam a ele recursos e estrutura.

Ao apresentar sua campanha como uma "Primavera Carioca", em referência ao movimento de revoltas que acontecem nos países árabes desde o ano passado, Freixo faz críticas ao que chama de política tradicional e busca uma "aliança com a sociedade" - mote já usado nas ondas verdes de Marina Silva (ex-PV) na disputa à Presidência em 2010 e Fernando Gabeira (PV) quando concorreu à Prefeitura do Rio em 2008. Os dois são simpatizantes da candidatura do PSOL.

Até o momento, o discurso de mudança na forma de fazer política, a atuação contra as milícias e a adesão de artistas parecem ter sensibilizado apenas o eleitorado mais instruído e com maior poder aquisitivo - concentrado na zona sul da cidade.

Já a aliança entre o ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e o ex-governador Anthony Garotinho (PR), que lançaram chapa com seus respectivos filhos, o deputado federal Rodrigo Maia e a estadual Clarissa Garotinho, ainda não cumpriu seu objetivo de atrair o eleitorado mais popular.

A aproximação dos antigos adversários, que se hostilizaram por mais de 15 anos, só conseguiu até agora concentrar rejeição. Semana passada, a chapa ainda perdeu o coordenador de campanha, Marcelo Garcia, depois que Garotinho apareceu no programa de TV fazendo críticas a Paes por, segundo ele, tentar agradar a gays e evangélicos ao mesmo tempo.

O PSDB continua sua sina de figurante no Rio. O deputado federal Otávio Leite oscila na faixa dos 5% nas sondagens e a veiculação de depoimentos de tucanos nacionais, como Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso, não teve efeito algum. Já o PV, que foi derrotado por Paes por apenas 55 mil com Gabeira em 2008, praticamente desapareceu com a candidatura de Aspásia Camargo.

"Povão". A campanha de reeleição do prefeito se concentra na apresentação dos resultados de projetos de sua administração direcionados, principalmente, para as zonas norte e oeste do Rio - regiões mais pobres e que concentram número elevado de eleitores.

"O Eduardo direcionou boa parte das obras para essas regiões e montou um pacote de projetos que tem uma pegada social, como bilhete único, Clínica da Família, Escola do Amanhã. Ele fez uma administração voltada para esse segmento, com o objetivo de reduzir as distâncias da cidade partida", explicou Renato Pereira, estrategista da campanha de Paes. "Nossas pesquisas qualitativas mostram que ele é identificado como candidato do povão".

Paes já havia arrecadado R$ 7 milhões até o início de setembro. Desse valor, R$ 5,5 milhões vieram de repasses do comitê financeiro e da direção nacional do PMDB, nas chamadas doações ocultas.

Além da estrutura e dos recursos, a ampla aliança em favor da reeleição deu capilaridade à campanha, segundo o presidente do PMDB do Rio, Jorge Picciani. "Tenho 1.250 candidatos a vereador pedindo votos para o prefeito. Se 300 estiverem fazendo campanha agora, com um grupo mínimo de 10 pessoas auxiliando, significa que são 3 mil pessoas nesse momento pedindo votos para ele. Isso tudo independentemente da campanha do prefeito", explicou Picciani.

Milícia. Desde o início da campanha, Freixo fez críticas à aliança de Paes. "A nossa campanha não precisa dar satisfações a 20 partidos que já lotearam a administração", repete ele frequentemente.

Mesmo assim, foi do PSOL que surgiu um candidato a vereador suspeito, que provocou abalos na candidatura de Freixo e assumiu um protagonismo involuntário na campanha.

Rosenberg Alves do Nascimento, o Berg Nordestino, foi citado no relatório da CPI das Milícias, presidida por Freixo, e tinha ligações com o vereador miliciano Luiz André Deco, preso ano passado. Berg foi expulso do partido, mas o episódio deu combustível para os adversários criticarem a postura de Freixo. "Nem ele leu a porra do relatório. Aquilo não era a verdade absoluta. Uma bíblia. Agora deixou de ser", acusou Paes.

O candidato do PSOL lamenta as dificuldades para a realização do segundo turno e até ironiza: "Tudo o que eu queria agora era um Crivella para chamar de meu", diz ele, referindo-se ao ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB), bispo licenciado da Igreja Universal.

Apesar da alta taxa de rejeição, nas últimas três eleições majoritária no Rio, ele conseguiu entre 18% e 21% dos votos no primeiro turno. Freixo acredita que haveria segundo turno certamente se Crivella estivesse disputando. Este ano, o PRB está na aliança com Paes.

O desempenho de Freixo nas pesquisas já ultrapassou as expectativas do seu partido. De acordo com a presidente do PSOL no Rio, Janira Rocha, as projeções da direção no início da campanha eram de que a candidatura chegasse a 17%. Os mais otimistas previam 20%. Agora, até o PMDB acredita que Freixo poderá chegar a 25%. "A campanha do Freixo extravasa o município do Rio. Ela é nacional e vai nos ajudar a consolidar o partido", disse Janira.

De fato, no início da noite de quinta-feira, a estrela do PSOL gravou depoimentos para candidatos do partido no Paraná e no Amapá. Era acompanhado por uma equipe da CCTV International, canal estatal chinês. Uma outra equipe francesa grava um documentário sobre sua candidatura. Freixo se orgulha e ressalta que sua campanha é a primeira a realizar um comício público na cidade "depois de 10 anos" - realizado nos Arcos da Lapa, na noite de sexta-feira. A Primavera Carioca de Freixo ainda conseguiu reunir Caetano Veloso e Chico Buarque num show, no último dia 11, depois de 40 anos. "Rendeu uns cento e poucos mil. O imposto levou muito", lamentou o candidato.

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