No rádio, locutor engole palavras e ganha tempo

Nomes dos partidos são inaudíveis

O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2008 | 00h00

É uma coisa ininteligível. Difícil até de explicar. Às vezes parece uma palavra, extraída de uma língua exótica, ou já morta: "rlholhov", "proppohof". Outras vezes, nem isso.Quem ouviu rádio nos últimos dias - e teve paciência para acompanhar as inserções da propaganda eleitoral gratuita - sabe do que se está falando: é do rabo da propaganda, o segundo final, quando, por exigência da lei, é preciso dizer o nome da coligação da qual faz parte o candidato a prefeito e também as siglas de todos os partidos que a integram.Os marqueteiros juram que cumprem a lei e que está tudo lá, tintim por tintim. Mas quem ouve não consegue entender lhufas - particularmente no caso das coligações com mais partidos. Em São Paulo, os exemplos imbatíveis são os da Coligação Nova Atitude por São Paulo, integrada pelos legendas PT, PSB, PC do B, PRB, PTN e PDT; e Coligação por São Paulo no Rumo Certo, com DEM, PMDB, PR, PV e PSC. A primeira é a coligação da ex-prefeita Marta Suplicy, e a segunda, do prefeito Gilberto Kassab.O problema dos marqueteiros é o seguinte: eles têm que distribuir o tempo da propaganda de cada candidato - 8 minutos diários para o Kassab e 5 minutos para a Marta - em pequenas inserções, de 15 segundos cada uma, distribuídas durante o dia. É um espaço de tempo muito curto para incluir os quilométricos nomes das siglas e de todos os partidos aliados. Se fosse feito isso, sobraria pouco tempo para a propaganda.Assim, resolveram acelerar a fala do locutor.Como fizeram isso? Contrataram algum narrador de corridas de cavalo? Não. Nem Ernani Pires Ferreira, o mais conhecido narrador de turfe do País, que fez carreira no Hipódromo da Gávea, no Rio, e foi considerado imbatível na capacidade de dizer mais palavras por minuto, conseguiria chegar ao escalafobético resultado que se ouve no rádio.Nenhum marqueteiro consultado pelo Estado quis comentar o assunto. Mas os técnicos de rádio sabem do que se trata: um truque dos softwares de gravação, conhecido como time stretching. É muito utilizado, por exemplo, nos finais dos programas de remédio, quando o locutor, também obrigado por lei, diz: "A persistirem os sintomas o médico deverá ser consultado."O problema dos marqueteiros foi o exagero na dose. Criaram palavras indecifráveis, ao menos para os ouvidos comuns, pois o assessor de imprensa de um dos candidatos, que não quis se identificar, jurou que entende tudo.

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