No princípio era o jenipapo

De onde veio o homem, para etnia ticuna? O mateiro Misael conta a história

Roberto Almeida, enviado especial à Amazônia,

10 de dezembro de 2009 | 16h25

Mateiro ticuna Misael amarrou o barco em pé de araçá alagado na noite de dezembro 9, e perfume da planta vinha para dentro com a brisa da noite aberta. Depois sentou na proa e começou a contar história que juntou Txami Matis, Bini Matis e Wilson Kanamari. 

De onde veio o homem, para etnia ticuna? No princípio, era o jenipapo.

Dois espíritos irmãos, um bom e um ruim, perambulavam na Terra. O bom tinha mulher, o ruim não. Quando bom saiu para caçar, ruim tratou de fazer filho nela.

Só que irmão bom voltou, viu mulher grávida. E decidiu se vingar.

Criança nasceu com ordem superior de o irmão ruim pintar ela com raspa de jenipapo. Quando subiu na árvore para pegar o fruto, o bom lançou feitiço: jenipapo e irmão traiçoeiro seriam a mesma coisa.

Assim que começou a raspar o jenipapo sobre a criança, irmão ruim raspava a si mesmo. E como era preciso obedecer ordem superior, ele se raspou todo, até acabar.

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Para se livrar do irmão ruim de vez, irmão bom jogou as raspas de jenipapo no rio. E elas viraram peixe-gente. Gente ruim.

E assim se dividiram as pessoas. Filho que irmão bom teve depois com a mulher viraram gente boa. E gente ruim foi pescada no rio. 

"Ticuna que bebe, usa droga e briga, esses tem até marca de anzol no beiço", disse Misael.

QUEM SÃO OS TICUNAS

A etnia ticuna é a mais numerosa do oeste do Amazonas. São mais de 30 mil índios que vivem em diversas comunidades. Uma das maiores é a de Umariaçu, colada na cidade de Tabatinga.

Eles vivem em aldeias, mas vida do não-índio da fronteira com Peru e Colômbia está muito próxima. Assim como o álcool e as drogas. Alguns ticunas são usados de mula para transportar cocaína.

Na equipe da Frente de Proteção Etnoambiental do Vale do Javari há dois ticunas: o mateiro Misael e o ajudante de campo Jeremias, que é mestiço.

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