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No país do 'deixa morrer'

Para Bolsonaro, pobres devem viajar de jegue, mas votam. Para Guedes, são só estorvo

Eliane Cantanhêde*, O Estado de S.Paulo

20 de junho de 2021 | 05h00

A nova postura da CPI da Covid, mais estratégica, concreta e dura, coincide com a marca de 500 mil mortos e o recorde de mais de 98 mil infectados em 24 horas na sexta-feira passada, o que projeta tempos ainda mais difíceis nesta e nas próximas semanas. 

A CPI come pelas bordas, mirando no Ministério da Saúde e no gabinete das trevas, mas o alvo está no centro desse mingau: o presidente Jair Bolsonaro.

Se convocar o ex-governador deposto Wilson Witzel e dois médicos pró-cloroquina foi um erro, dando palanque para a defesa do indefensável nos dois casos, a CPI acertou ao endurecer o jogo e dar consequência às provas já colhidas em depoimentos e documentos. A cúpula da comissão decretou condução coercitiva e apreensão do passaporte do empresário Carlos Wizard, retirou-se do depoimento pró-cloroquina e transformou 14 testemunhas em investigados.

A lista dos alvos dá boas pistas sobre a estratégia. Ali estão o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, os ex-ministros Eduardo Pazuello (Saúde) e Ernesto Araújo (Relações Exteriores), o ex-secretário Fábio Wajngarten e o ex-assessor Arthur Weintraub. Afora Queiroga, que tenta se equilibrar entre o seu discurso e o do presidente, os demais são pivôs de dois dos grandes erros do governo: descaso pela vacina e obsessão pela cloroquina.

Sem cargos no governo, nem antes nem agora, também viraram investigados os médicos Nise Yamaguchi e Paolo Zanoto e o empresário Carlos Wizard, que foge da CPI feito diabo da cruz, sabe-se lá por quê. Eles são a chave para desvendar de vez o tal gabinete das trevas do Planalto, suspeito de asfixiar o Ministério da Saúde para viabilizar a política anticientífica e absurda do presidente.

A quarta frente das investigações, aliás, diz respeito à asfixia, neste caso real, das vítimas de covid em Manaus. Além da incúria, do despreparo, do empurra-empurra, a CPI trabalha com a possibilidade de o governo ter, deliberadamente, usado os cidadãos da capital do Amazonas para experimentos com cloroquina que contrariam a OMS e as principais agências de saúde do mundo civilizado.

Começa a emergir também a velha linha de polícias e CPIs: seguir o dinheiro. Afinal, a propaganda da cloroquina e a obsessão do governo pelo “Kit Covid” foram só por ideologia, crença, achismo, ou teve interesse financeiro nisso? A mesma pergunta vale para as vacinas. Por que desdenhar de umas e depois aderir rapidinho a outras?

No seu mundo paralelo, Bolsonaro segue em campanha como se nada estivesse acontecendo, desrespeitando a vida, a ciência, a lei, até a lógica. Desmerecer vacina e enaltecer imunidade de rebanho, a esta altura, é a política do “deixa morrer”. E atacar as máscaras? Agredir adversários por “voz fina” e “calça apertadinha”? Sobre o meio milhão de mortos, nada.

Até aqui, havia atos golpistas e motociatas, mas as manifestações pela vida, vacina e “Fora, Bolsonaro” abrem um novo capítulo e mexem com o real interesse do presidente: a reeleição. Por isso, ele trata a economia como trata a ciência e pisoteia o ministro Paulo Guedes. Quanto mais a CPI avança, mais o populismo borbulha: aumento do funcionalismo em meio ao desemprego desesperador e benesses para atrair o eleitor do ex-presidente Lula. Algumas são defensáveis, a questão é a intenção e como fechar a conta.

Se Bolsonaro insiste no “deixa morrer” na pandemia, ele e Guedes têm sensibilidade diferente para os pobres. Para o presidente, eles devem “viajar de jegue”, mas têm voto. Para o ministro, são só estorvo. Empregada de avião para Miami? Filho de porteiro em universidade? E que tal raspar as sobras de comida do prato e dar para famílias miseráveis? A Terra não é plana, mas o Brasil parece terra arrasada.

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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