Dida Sampaio/Estadão
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Eliane Cantanhêde
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No MEC se usa o nome de Deus em vão para algo bem conhecido: roubalheira

Bomba cai no colo da bancada evangélica do Congresso, um dos pilares de sustentação do governo, e atrapalha as crenças éticas de uns e os negócios de outros

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2022 | 16h34

Como se vê, a política de “Deus acima de todos” no Ministério da Educação não tem nada de religiosa, ideológica ou mesmo partidária e eleitoral, o que já seria escandaloso. É muito pior. É o uso do nome de Deus em vão, para algo que tem um nome bem conhecido: roubalheira. 

O ministro Milton Ribeiro, ele mesmo um pastor, terá muita dificuldade em apontar onde está, afinal, o interesse público na mediação de dois pastores, sem qualquer vínculo com o MEC, e sem o menor prurido, para rachar as verbas da pasta para as prefeituras.

Depois de revelarem mais um gabinete oculto (ou do culto?) num governo cheio de gabinetes estranhos – paralelo, secreto e do ódio —, os repórteres Breno Pires, Felipe Frazão e Julia Affonso, do Estadão, agora nos trazem um áudio que explica tudo o que Ribeiro não consegue responder.

Em entrevista gravada, o prefeito Gilberto Braga, de Luiz Domingues, no Maranhão, mostra o preço da bondade dos dois despojados pastores do gabinete oculto do MEC: R$ 15 mil de cara, para o projeto ter alguma chance, e um quilo em ouro depois, como recompensa pelo esforço para “ajudar” o município. Pela cotação atual, é mais do que R$ 300 mil. Nada mal.

Somando as revelações, o resultado é que a bancada evangélica foi a primeira a gritar por transparência e decência, jurando que não tem nada a ver com isso. Quem tem? O ministro, que participou de 19 reuniões com os dois pastores, que não são do seu staff? Ou o presidente Jair Bolsonaro, que é chefe do ministro e, no mínimo, conhece os dois ungidos?

O fato é que a bomba cai no colo da bancada evangélica do Congresso, um dos pilares de sustentação do governo, e atrapalha as crenças éticas de uns e os negócios de outros. Vamos ver no que vai dar, inclusive porque a oposição já se mobiliza por uma nova CPI, depois da devastadora CPI da Covid no Senado. E, com nossos repórteres a postos, muita coisa ainda está por vir.

Entre tantos desmanches, na cultura, na política externa, no ambiente, na saúde, o governo se esmerou na Educação, uma área chave em qualquer país, mas particularmente crucial no Brasil, com uma desigualdade social histórica que começa justamente nas escolas.

O primeiro ministro mal falava português e era um peixe fora d’água, o segundo mal sabia escrever em português, gastava o tempo em guerrinhas ideológicas e queria prender os ministros do Supremo, o terceiro não chegou a assumir, depois das revelações constrangedoras sobre seu currículo e seus diplomas.

Assim chegamos ao pastor Milton Ribeiro, que começou dando uma entrevista — ao Estadão — dizendo que os jovens gays são frutos de “famílias desajustadas”. Já seria escandaloso na boca de qualquer educador, mas na do ministro da Educação foi o prenúncio do que Priscila Cruz, do Todos Pela Educação, atesta: “Ribeiro é o pior ministro do MEC da história”. Se a Priscila diz isso, quem sou eu para questionar?

*COMENTARISTA DA RÁDIO ELDORADO, DA RÁDIO JORNAL (PE) E DO TELEJORNAL GLOBONEWS EM PAUTA

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