No Dia do Índio, Lula faz mea-culpa por falta de políticas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez mea-culpa por não ter melhorado, no primeiro mandato, a qualidade de vida dos 700 mil índios. À frente do cacique txucarramãe Raoni, o presidente silenciou sobre temas polêmicos, como a insistência de grileiros de permanecer na área da nova reserva Raposa Serra do Sol, em Roraima. O presidente participou de solenidade no Palácio do Planalto em comemoração ao Dia do Índio, nesta quinta-feira, 19. Nos últimos meses, Lula não economizou críticas a movimentos indígenas e ambientais, acusando-os pelos atrasos nas licenças de construção de hidrelétricas e estradas na Amazônia. Nesta quinta, porém, o presidente reconheceu o descaso do governo nas aldeias. "Tudo o que não aconteceu de 2003 a 2006 a gente fará acontecer até 2010", afirmou Lula no discurso. "Neste novo mandato, vamos fazer as coisas que não fizemos." Animado pelo barulho de chocalhos, o presidente chegou a reclamar da falta de "civilidade" da sociedade nacional em relação aos povos nativos. Foi um momento atípico do governo, que não costuma marcar encontros com lideranças indígenas. "Temos de tornar a relação entre brancos e índios mais democrática e civilizada", disse. "O índio é um cidadão brasileiro, tem o direito de entrar no palácio do governo e ser atendido", ressaltou. Não faltaram promessas ainda que genéricas. "Vocês terão no segundo mandato muito mais atenção do governo", disse Lula. "Não queremos transformar vocês em brancos, mas transformar a sociedade", completou. Para o Dia do Índio não passar em branco, o presidente assinou a homologação das reservas Apyterewa (Pará), Entre Serras (PE), Itixi-Mitari (Amazonas), Palmas (Paraná e Santa Catarina), Pankararu (Pernambuco) e Wassu Cocal (Alagoas). A área total homologada é de 978 mil hectares. No final da solenidade, o presidente evitou responder a uma pergunta sobre a desnutrição infantil na região de Dourados, Mato Grosso do Sul, que só neste ano já causou a morte de duas crianças de até dois anos, segundo relatório da Fundação Nacional de Saúde (Funasa). Em 2006, 14 crianças de até quatro anos morreram nas aldeias do Estado. No ano anterior, o número de óbitos de pequenos índios chegou a 27. Desnutrição A gestão Lula é uma das mais controversas na área dos direitos indígenas, segundo entidades do setor. Durante todo o primeiro mandato, a Fundação Nacional do Índio (Funai) foi comandada pelo antropólogo Mércio Pereira Gomes, substituído no mês passado pelo também antropólogo Márcio Meira. Gomes entrou para a história da instituição ao dizer, numa entrevista à agência Reuters, que índio no Brasil tem muita terra. Depois da polêmica, ele disse ter sido mal interpretado. Também teve o nome citado em denúncias de uso de bilhetes aéreos pagos pelo governo para fins pessoais. Um dos desafios de Márcio Meira no cargo de presidente da Funai é conseguir colocar em prática a reserva Raposa Serra do Sol, uma área de 1,67 milhão de hectares, cobiçada por fazendeiros e garimpeiros. As 250 famílias de não índios com propriedade na área, cadastradas pelo governo, ainda não receberam indenização, e continuam lá. A reserva foi homologada em abril de 2005 depois de muito lobby de produtores de arroz que ocuparam parte da área após a demarcação, ocorrida em 1998. A pressão dos arrozeiros ainda é forte. Eles mantêm propriedades na área mais cultivável da nova reserva. Por causa do conflito, Lula nunca esteve em Roraima como presidente. O Estado é o único que ele não visitou nos quatro primeiros de governo.

Agencia Estado,

19 Abril 2007 | 18h24

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