No Chile, plateia reage com frieza a discurso de Obama

Ao contrário de outras visitas oficiais, o presidente americano não empolgou; chilenos esperavam desculpas pelo apoio dos EUA ao golpe de Estado de 1973

Denise Chrispim Marin, enviada especial de O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 22h39

SANTIAGO - O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, não conseguiu motivar a plateia do Centro Cultural da Casa da Moeda com o seu "emblemático" discurso para a América Latina. A Casa Branca esperava obter uma calorosa acolhida à menção da transição democrática do Chile como um exemplo e tornar esse discurso tão célebre quanto sua fala no Cairo ao mundo árabe, em 2009. A reação foi contrária. Minutos antes, durante entrevista à imprensa ao lado do presidente chileno, Sebastián Piñera, Obama havia se recusado a fazer um mea-culpa pelo apoio dos Estados Unidos ao golpe de Estado de 1973.

 

Obama pisava no pátio do mesmo palácio de governo onde o então presidente do Chile, Salvador Allende, foi morto e substituído pelo ditador Augusto Pinochet, há 40 anos. "A história das relações entre os EUA e a América Latina foi, por várias vezes, extremamente pedregosa. Eu não posso falar por todas as políticas do passado", desconversou. "Eu posso falar com certeza das políticas do presente e do futuro", completou, ao desestimular o apego ao passado e defender ter o governo americano apoiado o progresso chileno.

 

Essa questão está no topo da agenda política doméstica do Chile, motivada pelos 40 anos do golpe de Estado. O senador socialista Juan Pablo Letelier afirmara aos jornais locais que seria essencial um pedido de desculpas do líder americano. Letelier é filho de Orlando Letelier, chanceler de Allende que, no exílio em Washington, foi assassinado por agentes de Pinochet em 1976. Para a entrevista de Obama e Piñera, os jornalistas chilenos chegaram a um consenso em torno da pergunta sobre o mea-culpa americano, feita pelo repórter da Rádio Cooperativa.

 

Esse não foi o único constrangimento de Obama. Ainda na entrevista, o próprio Piñera o provocou a fazer aprovar no Congresso americano os acordos de livre comércio firmados pelos EUA com a Colômbia e o Panamá e ainda pendentes. Um dos chamados de Obama ao Chile e ao restante da América Latina foi exatamente a melhoria da relação comercial. Piñera acentuara seu desejo de ver aperfeiçoado o acordo de livre comércio entre Chile e EUA, dos anos 90.

 

No Cultural, Obama foi aplaudido apenas na chegada e ao final de seu discurso. Frases de efeito não arrancaram aplausos da platéia, na qual estavam presentes três ex-presidentes da fase de redemocratização do Chile - Patrício Aylwin, Eduardo Frey e Ricardo Lagos. Michele Bachelet não compareceu. As duas menções ao poeta chileno Pablo Neruda e aos 33 mineiros resgatados no deserto de Atacama, em 2010, passaram em branco pela audiência. Expressões em espanhol não foram recebidas com simpatia.

 

Obama resgatou seu discurso na Cúpula das Américas de Trinidad e Tobago, em 2009, e propôs uma relação de iguais entre os EUA e os países latino-americanos, não mais entre parceiros "junior e sênior". Reconheceu ter o seu país "criado problemas" na região, com base em "escolhas equivocadas". E lembrou ter a América Latina, especialmente o Brasil e o Peru, feito reformas difíceis, porém necessárias. "Não há mais o velho esteriótipo, da região em conflito perpétuo e em um ciclo de pobreza sem fim", afirmou. "América Latina é hoje pacífica. As guerras civis acabaram."

 

Ao tocar nos desafios regionais, propôs uma reafirmação dos princípios da Carta Democrática Interamericana pelos 34 países - Cuba não toma parte desse compromisso. Da mesma forma, fez um chamado em favor do respeito de Cuba aos direitos humanos e para a retomada da Aliança para o Progresso, projeto do ex-presidente John F. Kennedy para reformar as instituições na região. "Não há substituto para a democracia", declarou.

 

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