Werther Santana/AE
Werther Santana/AE

No centro de São Paulo, 290 mil imóveis estão à espera de moradores

Região tem casas e apartamentos vazios em número mais do que suficiente para atender a população que não tem onde morar

Débora Álvares, de O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2012 | 22h30

A reocupação do centro tornou-se uma das principais discussões urbanas de São Paulo. Além de ser uma questão essencial para o problema da habitação na capital, levar de volta moradores à região, que contempla os bairros Bela Vista, Bom Retiro, Brás, Cambuci, Consolação, Liberdade, Pari, República, Santa Cecília e Sé, envolve ainda temas como transporte, segurança, serviços e atrações culturais.

Degradado, o centro foi abandonado por famílias, empresas e governo. Dados do IBGE mostram que o local perdeu 179.584 habitantes ao longo das décadas de 80 e 90 – para se ter ideia, o Censo aponta que há 290 mil domicílios vazios na região, o que seria mais do que suficiente para criar casas e os apartamentos para atender as 130 mil famílias de São Paulo que não tem onde morar. Ao todo, o déficit habitacional conta ainda com outras 800 mil famílias quem vivem atualmente em situação de risco, em áreas precárias ou em terrenos irregulares

Entre 2000 e 2010, em um movimento iniciado especialmente a partir de 2006, a região começou a ter um retorno tímido da população, mas ainda assim um retorno: 65.485 voltaram a habitar a área central da cidade. Com o aumento no número de restaurantes, cafés, bares e lojas na região, aliado à uma infraestrutura ímpar, o próprio mercado imobiliário passou a ver a região com outros olhos. Hoje, há exatos 22 prédios residenciais em construção no centro, o que pode levar ao local, ao longo dos próximos quatro anos, mais de 6 mil moradores.

Entre essas pessoas que voltaram a morar no centro está Maria Aparecida Ferreira. Apesar das facilidades de acesso, ela reclama de questões como insegurança, falta de iluminação e, especialmente, os altos custos. Segundo o Sindicato da Habitação (Secovi-SP), o preço médio do aluguel de um imóvel com um dormitório no centro, caso da moradia de Maria Aparecida, é R$ 1.454,20. Já na chamada zona leste B, onde a assistente administrativa morou nos últimos anos, alugar um apartamento de um quarto não sai por mais que R$ 796,95, quase metade.

Da parte pública, no entanto, a revitalização do centro ainda caminha a passos miúdos. A principal proposta da gestão do prefeito Gilberto Kassab (PSD), a "Nova Luz", nem teve o edital para sua licitação de R$ 1,1 bilhão publicado. Nos últimos três anos, a projeto enfrentou liminares da Justiça e protestos de lojistas. Outra ideia da Prefeitura é o Renova Centro, programa lançado em 2009 que pretende destinar mais de 60 edifícios para moradia popular, totalizando 3 mil unidades. Até agora, nenhum prédio foi entregue. Segundo a Secretaria da Habitação, há 16 prédios em obras, sendo que apenas um deverá ser inaugurado até dezembro e os outros não contam nem com previsão de conclusão.

Para especialistas, o governo deveria mais do que promover moradias de interesse social para as famílias de baixa renda, criar uma estratégia que facilite o acesso dessa população às unidades produzidas. "Essas famílias não têm renda suficiente para comprar esses imóveis e, por isso, é preciso adotar novas formas de acesso", acredita o urbanista Kazuo Nakano, técnico do Instituto Polis. Para ele, a elevação na renda e a maior oferta de créditos imobiliários deveria ajudar a reurbanizar o centro. "As pessoas que conseguem ter uma melhor condição econômica e um emprego com salário fixo acabam decidindo morar no centro, que é um local que permite acessibilidade para todas as partes da cidade."

Professor de história da urbanização da Faculdade de Arquitetura da USP, o urbanista Renato Cymbalista não vê em políticas macro a solução para a questão do despovoamento da região. "Precisamos de uma política de adensamento quadra a quadra, com ações específicas para cada local". Segundo ele, uma boa ideia para o governo seria incentivar a construção de unidades habitacionais sem garagem, o que diminui o valor dos imóveis e permitiria um acesso mais facilitado da classe média.

Depoimento. "Morava em Cangaíba, na zona leste, mas resolvi vir para cá (Rua Helena Zerrener, na Sé) há seis meses por causa do acesso. O trânsito para chegar aqui me irritava muito. Já cheguei a descer do ônibus depois de 40 minutos parado no congestionamento, ir a pé até algum local menos complicado e pegar outra condução para terminar de chegar ao trabalho. Hoje faço praticamente tudo à pé. Mas apesar da facilidade de acesso, aqui é ruim em algumas questões, como limpeza, iluminação, segurança. Aqui também é tudo mais caro. Meu custo de vida dobrou, entre aluguel, despesas e gastos com comida", Maria Aparecida Ferreira. 

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