No caldeirão do ‘Estou aqui’, Huck e Lula buscam apoios contra ‘E daí?’

Frase de apresentador de TV também foi dita por petista em vídeo divulgado há duas semanas, para se contrapor a Bolsonaro 

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2020 | 14h16

Caro leitor,

A menos de dois meses das eleições municipais que vão escolher prefeitos e vereadores, em 15 de novembro, candidatos costumam dizer que buraco de rua não tem ideologia: não é de centro, nem de direita, nem de esquerda. Mas todos os partidos na disputa se movimentam para verificar se a terraplanagem de hoje pode pavimentar um caminho sem rachaduras logo ali na esquina.

Visto como um “outsider” na política, num estilo “gente como a gente” sem filiação partidária, Luciano Huck ainda não ganhou rótulos. Além de empolgar o “novo centro”, no entanto, ele se aproxima cada vez mais do “pobre conservador”, aquele que defende valores tradicionais da família e da religião. É justamente com essa camada da população que o PT, mesmo antes de protagonizar escândalos, nunca conseguiu dialogar.

“Estou aqui”, disse Huck na segunda-feira, 21, quando questionado pelo Conselho Político e Social (Cops) da Associação Comercial de São Paulo se tinha “coragem” de ser candidato à Presidência da República. Poucos repararam, mas, duas semanas antes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva já havia usado a mesma frase. “Estou aqui. Vamos juntos reconstruir o Brasil”, afirmou Lula em vídeo divulgado no 7 de Setembro.

No Palácio do Planalto, uma possível candidatura de Huck à sucessão de Jair Bolsonaro, em 2022, é tratada com desdém por auxiliares do presidente. Nos bastidores, porém, com uma plataforma econômica sob medida para agradar de liberais a setores da centro-esquerda, o empresário e apresentador de TV tem conquistado apoios desde 2018, quando quase saiu candidato. 

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), está na lista desses simpatizantes. Maia já disse ao Estadão, mais de uma vez, que seria “natural” apoiar Huck ou o governador João Doria (PSDB) na briga de 2022.

“Huck também me surpreendeu positivamente”, observou o ex-senador Heráclito Fortes (DEM), que coordena o Conselho Político e Social da Associação Comercial de São Paulo. “Ele tem a medida de até onde pode ir e age com muita cautela. Está trabalhando dentro da filosofia do futebol: se você der a ele o espaço de um lenço, transforma em latifúndio”, emendou.

O sociólogo Paulo Delgado, outro integrante do Conselho da Associação Comercial, disse que o apresentador lhe pareceu “sincero”, curioso e com conteúdo. “Mas só acredito em terceira via no Brasil quando tivermos três candidatos desde o primeiro turno. Quem não for PT nem governo, por exemplo, deveria se unir. O sistema de dois turnos é predador porque quem não tem chance lança candidato assim mesmo”, ressalvou o ex-deputado, que deixou as fileiras do PT.

Nesse caldeirão político em que a capacidade de se indignar parece distante, o fato é que do “E daí?” de Bolsonaro ao “Estou aqui” de Lula e Huck há uma árdua corrida de obstáculos até o confronto de 2022 e ninguém sabe quem vai sobreviver. Agora, na primeira eleição sem coligações proporcionais, numa quadra de recessão pós-pandemia, queimadas nas florestas e incertezas sobre o destino de “joias da coroa” como São Paulo e Rio, ainda existe muito buraco a ser tapado.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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