Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

‘No Brasil, mudar nome de partido é absolutamente estético’, avalia publicitário

Representante da nova geração de marqueteiros políticos, Chico Mendez afirma que crise pela qual as legendas passam são parte de processo de legitimidade das instituições

Ricardo Galhardo e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

06 de maio de 2019 | 18h59

Representante da nova geração de marqueteiros políticos pós-Lava Jato, Chico Mendez avalia que a estratégia em voga entre legendas brasileiras de tirar a palavra “partido” de seus nomes não passa de cosmética. Segundo ele, a raiz da crise dos partidos brasileiros não está no nome, mas em um processo de perda de legitimidade das instituições de forma geral, legendas incluídas, provocada pelos avanços tecnológicos.

Para Chico, quando o cidadão tem tudo o que precisa na tela de um smartphone, as instituições perdem a relevância. Um exemplo de como isso se aplica à política é a eleição de Jair Bolsonaro, que alavancou sua candidatura por meio das redes sociais para só depois procurar um partido. No domingo, o Estado mostrou que os maiores partidos do Brasil já "se rendem" à possibilidade de adotar um nome novo

Para Chico, a queda da popularidade de Bolsonaro não o impede de governar pois, na nova ordem, não é necessário ter maioria. Basta o apoio de uma minoria representativa para projetar sua identidade e se manter em evidência. O marqueteiro define a situação como uma “webcracia”.

Leia os principais trechos da entrevista concedida ao Estado:

Por que as legendas estão tirando a palavra “partido” de seus nomes? É para evitar o desgaste dos partidos ou estão seguindo uma tendência mundial, como acontece na Espanha e França, onde existem novas formas de aglutinação política?

Tem uma diferença que é importante. Lá fora, principalmente nos países europeus, os movimentos têm legitimidade política para disputar eleição. Aqui, não. É diferente. Os caminhos, a rapidez e a naturalidade explicam muito dos movimentos que funcionam e das mudanças meramente estéticas. No caso do Brasil mudar nome de partido é absolutamente estético.

É a mesma coisa que pegar uma Skol, botar dentro de uma lata de Heineken e falar que tem uma Heineken. Você tem uma Skol. Tem um pouco de ansiedade de achar que medidas estéticas ajudam como se fossem uma coisa paliativa. Acho que não é isso. A gente tem de buscar a raiz do problema. Não acho que mudar de nome faça bem ou mal. É absolutamente inócuo.

Onde está a raiz do problema?

Toda essa crise de representatividade, tudo o que representa a política como instituição, todo o estamento burocrático, é o fruto da descrença que as pessoas têm nos partidos políticos. Temos duas maneiras de buscar a gênese deste processo. Tem uma teoria mais batida mas que faz sentido que é a do fim da era da grande moderação. O movimento da globalização no início dos anos 90 não trouxe grandes melhorias para a vida das pessoas.

Havia toda a expectativa de que a quebra de barreiras, um mundo mais livre e mais próximo seria a grande solução dos problemas da humanidade. Aí veio a crise de 2008 e a recuperação da crise de 2008 que deram o lastro para o ressurgimento e força do que o (Francis) Fukuyama chama de política do ressentimento.

Começaram a tirar da pauta a discussão entre direita e esquerda que se dava em torno de medidas econômicas e começam a surgir as bandeiras identitárias. A direita e a esquerda começaram a se reagrupar não mais em cima da teoria marxista de distribuição, mas de políticas identitárias e representação de grupos. A esquerda com os grupos LGBT, negros, minorias e a direita com religiosos, ruralistas etc. Isso mudou muito o patamar da maneira como a gente se identifica com a política.

Qual a segunda hipótese?

A segunda hipótese, que eu defendo muito, é que a gente está 100% aqui (aponta para o celular). Está tudo aqui. E quando está tudo aqui na palma da mão e você não depende das instituições para conseguir as coisas, quando você começa a fazer isso a partir do seu próprio instinto, seus próprios contatos, de maneira muito mais rápida e sem burocracia, as instituições perdem valor e representatividade.

Você pode dar um exemplo?

O exemplo clássico é a economia compartilhada. Ninguém precisa mais da prefeitura chancelando se o taxista é bom ou não. Eu tenho uma rede de contatos de milhões de pessoas que chancelam outras pessoas. Então eu parei de confiar na instituição e comecei a confiar muito mais no outro. Essa rede de relacionamento fez com que as instituições perdessem relevância. Eu não preciso mais ir no cartório para alugar um apartamento, posso fazer a partir de um aplicativo.

Não preciso mais de chancela para pegar transporte público. Não preciso mais recorrer a um agente de viagem para saber se um hotel é bom ou ruim. Quando o estamento cartorial e burocrático perde valor, ainda mais em um País como o nosso que sempre foi cartorial e burocrático, as instituições acabam ficando em segundo plano.

É uma “uberização” da política?

É uma “webcracia”. Você entra no carro de uma pessoa que você nunca viu na vida. Você entra na casa de uma pessoas que nunca viu na vida. Você deixa seu cachorro com alguém que nunca viu. Isso por um lado é muito legal porque faz renascer a confiança mútua entre as pessoas. Por outro lado é ruim porque deixa as instituições em segundo plano e qualquer crise institucional a gente não sabe como resolver.

Então, voltando aos partidos políticos, eles perderam o sentido enquanto mediadores da política?

Perderam o sentido. Perderam relevância. As pessoas não precisam mais do estamento partidário para fazer parte da política nem para escolher o caminho que ela vai seguir.

Como os partidos podem superar isso?

Isso também vale para a imprensa. A imprensa é uma instituição também e ela entra em crise a partir do momento em que as pessoas começam a criar os seus próprios canais de comunicação. É o que tem acontecido com as marcas e pode ser uma saída importante para a política. As marcas se tornaram seus próprios canais de conteúdo.

Elas não precisam mais da imprensa para distribuir o conteúdo delas. Uma saída é compreender que não é preciso fazer nenhum esforço institucional, porque tudo o que é institucional perde o valor muito rápido, e buscar o caminho que os americanos fazem brilhantemente que é o “branded content” (marketing de conteúdo), produzir seu próprio conteúdo de forma apartidária. Você atrai audiência quando toca em temas morais, discussões que gerem algum tipo de burburinho na sociedade.

Os partidos têm legitimidade para isso, independentemente do lado em que eles estejam. É uma maneira de se reaproximar e se reinventar. Talvez seja um pouco distante para algumas cabeças que estão ali mas não existe outro caminho porque ninguém vai acreditar no que o partido disser.

Isso que você relatou é o que o Bolsonaro fez? Ele se lançou a partir de um movimento e depois foi procurar um partido para dar suporte legal à candidatura. Já dá para sentir os efeitos disso no governo Bolsonaro?

Com certeza. O que ele está fazendo é exatamente isso. Ele sacou lá atrás que não precisa das instituições tradicionais para se comunicar, tem uma audiência dele muito forte calcada em temas morais e que tem muito a ver com a política do ressentimento, que é uma tese na qual o Fukuyama defende que grupos estão sempre em busca de reconhecimento.

Por muito tempo a panela ficou fechada para sentimentos mais à direita. Então veio 2013, a panela é destampada, estes grupos saem da toca e perdem a vergonha. Todo mundo busca reconhecimento e dignidade, então não adianta só eu me reconhecer como parte de um grupo digno, é preciso fazer com que o outro também me reconheça e aí começa toda a efervescência de grupos de direita que se juntam em temas morais.

Mas o apoio popular do Bolsonaro está caindo desde a posse.

Hoje para você se manter não é preciso ter a maioria absoluta. Você só precisa da maioria da minoria. Ele sacou isso. Os temas morais mobilizam muito mais. Não adianta vir com aquele papo de filosofia grega de que o ser humano é racional. É nada. A resposta está muito mais em (Gustav) Le Bon do que em (Karl) Marx.

Le Bon em 1860 começou a estudar como um sujeito perde sua capacidade de pensar individualmente quando faz parte de uma massa. Não tem nada mais atual do que essa tese aplicada ao mundo das redes sociais. Muitas pessoas agressivas nas redes sociais não são agressivas em casa ou na rua. Mas ela encontra nas redes um ecossistema perfeito para fazer parte de um grupo mantendo a segurança.

Isso explica o sucesso da estratégia eleitoral do Bolsonaro?

Eleição é contexto. Muito mais do que estratégia. E o contexto estava todo favorável para uma candidatura anti-estabilishment voltado para destampar a panela e tirar alguns “preconceitos” aos quais um grande e significativo grupo ficou sujeito por muito tempo.

Foi suficiente para ele se eleger. É suficiente para governar?

O Congresso ainda é uma instituição que tem um rito burocrático, tem o tempo dele, que não é o tempo das pessoas. Antigamente você respeitava o tempo do Congresso porque as coisas demoravam muito mais a acontecer e você dependia dos resultados que saíam dali. Hoje não, as coisas acontecem tão rápido que as instituições perdem relevância. Bolsonaro é o caos no método, como escreveu o Marcos Nobre (na revista piauí). Não deixa de ser um jeito de enxergar a opinião pública, um jeito quase iconoclasta. Neste sentido ele tem muito sucesso.

Mesmo com um índice baixo de aprovação?

Faço uma crítica a quem fica dizendo que ele começou com cinquenta e tantos e hoje tem trinta e poucos porcentuais de ótimo e bom. A avaliação de governo pós-2013 mudou muito. O renascimento da cidadania que aquilo representou fez com que todas avaliações de Executivo baixassem para outro patamar, outra média. As avaliações lulistas, aecistas, de 70% ou 80%, não existem mais. Talvez você encontre em nível local. A maioria da minoria é suficiente para que você projete a sua identidade.

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