No Acre, Marina pede votos a petistas

Em terceiro lugar nas pesquisas de intenção de voto no Acre, a candidata do PV à Presidência da República, Marina Silva, corre o risco de perder a eleição em sua terra natal para o PT de Dilma Rousseff. Num Estado dominado há 12 anos pelos petistas Jorge e Tião Viana, candidatos ao Senado e ao governo estadual, respectivamente, Marina optou por ficar sem palanque na região para manter uma coligação que existe há duas décadas.

DAIENE CARDOSO, ENVIADA ESPECIAL, Agência Estado

07 de setembro de 2010 | 12h21

Embora seus antigos companheiros de PT se utilizem da enorme estrutura de campanha para pedir votos exclusivamente em Dilma, Marina passou três dias no Acre - sábado, domingo e segunda-feira - pedindo votos para Jorge, Tião e Edvaldo Magalhães (PCdoB), segundo candidato da coligação ao Senado.

"Eu me sinto coerente porque estou fazendo o que sempre fiz: dando continuidade ao nosso projeto, ainda que não seja perfeito", argumentou a candidata nas vezes em que foi perguntada neste fim de semana sobre a situação inusitada no Acre, em que uma candidatura local tem o apoio de duas presidenciáveis, mas em troca só se esforça pela candidatura petista. "Eles estão no papel deles", resigna-se.

PT e PV estão unidos no Acre há 20 anos através da coligação chamada Frente Popular, que também reúne outros partidos. A coligação derrotou há 12 anos o governo peemedebista local e se consolidou no poder com a administração de Jorge Viana. Com grande aprovação popular, o PT deve continuar governando o Acre, já que Tião lidera as pesquisas e pode vencer no primeiro turno.

Ao deixar o PT, em 2008, Marina pediu que o PV do Acre se mantivesse na coligação. "Verde, vermelho ou azul, essa é nossa terra e a gente precisa aprender a conviver, mesmo na diferença", disse, numa das inaugurações de comitês domiciliares em Rio Branco.

Na sexta-feira, véspera da sua chegada ao Acre, o programa da Frente Popular no horário eleitoral citou a vinda da candidata ao Estado. Nos poucos segundos do espaço dedicado ao PV, o suplente de Edvaldo Maganhães, Júlio Pereira (presidente de honra do PV no Estado), anunciou a visita da presidenciável. Os demais candidatos da coligação não mencionaram Marina. Ainda assim, Marina gravou ontem (6), na mesma produtora do PT, mensagem para a propaganda eleitoral de Edvaldo e Jorge, pedindo votos para os dois.

Estrutura mínima

Com poucos recursos para levar a campanha ao interior e assim competir com os milhares de cartazes espalhados pelas cidades com fotos dos petistas ao lado de Dilma Rousseff e Lula, a campanha de Marina não consegue mostrar sua cara no Estado e, por isso, a coordenação aposta nos efeitos da visita da candidata ao Acre. Hoje, Marina tem 19% das intenções de voto, Dilma cresceu e aparece com 32% e José Serra (PSDB) com 34%, segundo pesquisa mais recente do Ibope.

Em Cruzeiro do Sul, segundo maior colégio eleitoral do Estado, isolado no meio da Floresta Amazônica e localizado a mais de 600 quilômetros de distância da capital, Marina passou a tarde de sábado em eventos discretos. Do aeroporto seguiu para a inauguração de um comitê domiciliar, deu entrevista para uma rádio local e lançou sua biografia num centro cultural onde participaram menos de 100 pessoas. Sem carro de som, sem militantes com bandeiras nas ruas ou cartazes espalhados na cidade do Vale do Juruá anunciando sua presença, a passagem da ilustre acreana foi quase despercebida.

Já em Rio Branco a candidata teve momentos de maior contato com seus conterrâneos: na comemoração do Dia da Amazônia ao lado do Parque Chico Mendes - evento que chegou a ser ameaçado porque a administração do parque não queria permitir o ato, mesmo fora do parque -, no lançamento de sua biografia (que contou com a presença maciça de amigos e parentes e de toda imprensa local) e na caminhada pela região de comércio popular no centro. "Em vários lugares aqui tem a minha marca. As pessoas me conhecem. Não será por falta de informação que deixarão de votar em Marina", disse, em entrevista a uma TV local, ao ser questionada sobre seu terceiro lugar nas pesquisas no Estado.

A candidata verde não reclama do domínio petista no Estado, já que essa consolidação se deu com sua própria ajuda. Ela acredita que pode vencer as eleições em Rio Branco, mas admite que a falta de recursos compromete a campanha no interior do Estado, onde é preciso esclarecer o eleitor de que Marina não pertence mais ao PT, embora continue pedindo votos para os petistas locais. "Pela primeira vez os eleitores têm de separar PT e Marina. Eles ainda acham que a Marina é um corpo único do PT", avaliou Tião Viana durante o lançamento do livro sobre Marina, na noite de domingo.

Jorge Viana nega que a coligação boicote a antiga companheira e alega que o problema do PV se deve ao espaço limitado em nível nacional. "O PV tem só um minuto de TV e pouco espaço no País todo", argumenta. O ex-governador admite que o PV é um colaborador leal na campanha no Acre. "Marina foi muito bacana com a gente."

Na tese de Marina de que política pode ser feita com debate e não com embate, o mais importante na questão peculiar do Acre, onde poderia ganhar facilmente de Serra ou Dilma, é manter sua coerência, sem transformar os antigos aliados em inimigos, mesmo que isso seja incompreensível para o eleitor. "Não vou me transformar naquilo que combato", costuma dizer. "Política pode ser feita com respeito e decência."

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