''''Ninguém vai se submeter a ninguém na AL'''', diz analista

Harry Vander, ex-assessor de Carter, avalia que País está abrindo bom caminho para século 21

Gabriel Manzano Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2018 | 00h00

A América Latina assiste, hoje, a um redescobrimento dos interesses reais de cada uma de suas nações. A influência americana é menor que no passado e os governos têm uma visão mais clara do que cada sociedade quer. Nesse cenário, a idéia de democracia não pode ser a mesma de outras décadas: aos poucos ela vem incorporando novos agentes, como os movimentos sociais, avalia o cientista político e professor Harry Vanden, da Universidade de Tampa, na Flórida (EUA). Mas as tensões que têm aparecido são normais na construção desse novo patamar. "O que conta é que países como Brasil, Argentina ou Venezuela têm história e tradição e nenhum deles vai se submeter a ninguém. Cada uma está buscando seu próprio caminho e não há mais clima para algo como fez Carlos Menem, nos anos 90, quando a Argentina aceitou uma receita externa, dolarizou a economia e trouxe imensos problemas", acrescenta.Vander é um velho conhecedor da política no continente. Assessorou o ex-presidente Jimmy Carter nas equipes que fiscalizaram diversas eleições, como a de Hugo Chávez em 1998. Já trabalhou e viveu na América Central e no Peru, onde ajudou na reforma administrativa. Em São Paulo, ele participou esta semana de um seminário sobre "Lideranças Emergentes na América Latina", no Memorial da América Latina. Em sua avaliação, o Brasil, em meio aos conflitos e pressões, está em condições de aproveitar as oportunidades do século 21.Para ele, o vaivém das relações do Brasil com Bolívia ou Venezuela não tem raízes profundas. "O Brasil apoiará algumas políticas de Hugo Chávez até certo ponto. Ele não quer um enfrentamento com os Estados Unidos", afirma. "Só lá no meu Estado, a Flórida, as exportações de suco de laranja brasileiro são enormes e eles não vão querer perder isso." Na Bolívia, diz ele, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva "agiu certo ao evitar muita pressão sobre o presidente Evo Morales". Se o Brasil forçasse muito, adverte, Morales teria de radicalizar - pois há um forte sentimento entre os bolivianos de que o país precisa ter um controle absoluto sobre seus recursos naturais para ter chance de afirmação nacional no futuro. "De outro modo, Morales poderia enfrentar rebeliões internas muito fortes. O Brasil jogou pensando num cenário mais tranqüilo no médio prazo."O professor acha que não é preciso impressionar-se muito com o estilo e os discursos de Chávez: "Ele fala muito, mas não nacionalizou quase nada. Quem nacionalizou o petróleo na Venezuela foi um governo de direita. E o objetivo dele não é a nacionalização, mas o controle de setores estratégicos, como petróleo e gás." E emenda: "Ele tem, sim, uma antipatia pessoal pelo presidente George W. Bush."LIBERDADEO professor não acha, por fim, que a liberdade esteja sendo ameaçada pelos discursos radicais nem corra o risco de dar lugar a regimes extremistas. "Minha tese é de que as coisas estão mudando. Temos outras formas de democracia que não são mais as tradicionais. Hoje há novos parceiros no jogo. Cocaleiros na Bolívia, zapatistas no México, outros grupos indígenas no Equador, os sem-terra no Brasil." Ele assinala também o envelhecimento dos partidos conservadores, muitos dos quais perderam espaço e apoio das bases por não realizar suas promessas. "O que quero lembrar", prossegue, " é que já houve autoritarismo forte no continente. Na Guatemala, depois de 1954 morreram 200 mil pessoas. Mais tarde, em El Salvador, 60 mil pessoas. Houve também momentos duros com Velazco Alvarado, no Peru dos anos 80. Hoje isso não se verifica."O que vale, segundo ele, é que "há muito mais pessoas votando, em todas as eleições, do que no passado, em eleições mais vigiadas." Mas admite um problema urgente: "A América Latina precisa superar sua incapacidade fiscal e usar os impostos para os projetos sérios." E nesse item "o Brasil, podem crer, não é a pior coisa do mundo. Ele está criando um caminho próprio - como a Índia, a China. E vai competir melhor nesse novo cenário".

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