Edilson Rodrigues/Ag. Senado
Edilson Rodrigues/Ag. Senado
Imagem Eliane Cantanhêde
Colunista
Eliane Cantanhêde
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Ninguém na CPI da Covid é criança e não dá para brincar com coisa tão séria: a vida

Aconteceu o que não poderia acontecer: a comissão rachou exatamente no seu momento mais importante

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 03h00

Aconteceu o que não poderia acontecer: a CPI da Covid rachou exatamente no seu momento mais importante, quando todas as energias deveriam estar voltadas para um relatório final impecável, sem brechas para contestações e nulidades, e para os desdobramentos políticos e jurídicos de um trabalho que tem sido excepcional.

Senadores da CPI reclamam do “vazamento” das mais de 1.500 páginas do relatório na estreia do novo formato do Estadão. Uma reclamação sem sentido. Foi um notável furo de reportagem, totalmente dentro das regras entre fontes de informação e jornalistas que disputam notícias em primeira mão. É assim em todo o mundo democrático e foi assim em todas as CPIs no Brasil.

Os demais motivos são mais complexos, de conteúdo, com muitos debates e rusgas na CPI: a tipificação de “genocídio” contra indígenas; a inclusão dos três filhos políticos do presidente Jair Bolsonaro, senador Flávio, deputado Eduardo e vereador Carlos, sem que tenham sido ouvidos; o agravamento do crime atribuído ao próprio Bolsonaro.

A previsão era o enquadramento do presidente em “homicídio comissivo”, mas, no relatório ao qual o Estadão teve acesso, isso evoluiu para crime doloso, qualificado, com a intenção de matar. Em vez de responsabilizar Bolsonaro por omissão, o relator Renan Calheiros quer enquadrá-lo por ter deliberadamente causado a morte de milhares de brasileiros na pandemia.

Renan diz que continua consultando, um a um, os membros da CPI e que vai defender seus pontos de vista, mas não está fechado a alterações. Seu principal obstáculo será o presidente da comissão, Omar Aziz, que se colocou todo o tempo como a voz do equilíbrio, contra perseguições e radicalização. Mas há outros descontentes.

A questão não é amenizar o relatório para proteger Bolsonaro, até porque, se há um consenso na cúpula da CPI, ou no “G7”, o grupo que realmente toma as decisões, é que Jair Bolsonaro é inegavelmente, inequivocamente, responsável pelo descontrole na pandemia e, portanto, por parte das mortes.

As dúvidas são pragmáticas, porque o relatório final tem de ter consistência, densidade, sem flancos para ser questionado ou anulado facilmente nas instâncias jurídicas e ser desacreditado politicamente por Bolsonaro, seus filhos e suas redes sociais, que, como todos sabemos, e alguns sofrem na pele, estão se lixando para a realidade. O que vale é a versão.

Assim, o importante nas próximas horas e nos próximos dias é exigir união, responsabilidade e maturidade da CPI. Ninguém ali é criança. E não dá para brincar com coisa tão séria. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.