Nildo tem dia normal de trabalho após decisão

Caseiro, segundo advogado, foi lavar pedras e fachadas de casas do Lago Sul, sua nova profissão

Vannildo Mendes, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

O caseiro Francenildo dos Santos Costa acordou cedo ontem para limpar pedras em casas do Lago Sul de Brasília. "É a regra, a gente tem que ralar!", comentou, quando seu advogado, Wlício Chaveiro do Nascimento, quis saber se ele fora trabalhar após a decisão do Supremo, que livrou o ex-ministro Antônio Palloci de processo criminal. Nildo, como é conhecido, aceitou o emprego há um mês, depois de ser rejeitado sucessivamente na sua real profissão, caseiro, tão logo era reconhecido pelos patrões. Na nova função, ele usa jatos de água para limpar fachadas e calçadas. Em média, fatura entre R$ 50 e R$ 80 por dia, conforme o desempenho. Mas não é sempre que há oferta de trabalho. Por conta das frustradas tentativas de emprego, ele enfrenta dificuldades financeiras e mora com a família, mulher e filho, numa modesta casa na cidade satélite de São Sebastião. "Ele mantém a cabeça erguida e evita se passar por vítima", explicou Wlício. Pivô da crise que em 2006 derrubou o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, o caseiro disse aos amigos que agora só lhe resta "tocar a vida adiante". Por unanimidade, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) concluíram, no julgamento de quinta-feira, que houve o crime de quebra de sigilo bancário da conta do caseiro para desmoralizá-lo, mas por 5 votos a 4 o tribunal entendeu que não havia prova da responsabilidade de Palocci. A violação do sigilo ocorreu em 2006, depois que Nildo revelou ao Estado que Palocci frequentava reuniões com lobistas numa casa em Brasília, na qual ele trabalhava como caseiro. Descobriu-se, por meio ilegal, que Nildo havia movimentado R$ 38 mil na sua conta de poupança na Caixa Econômica Federal. Provou-se depois, todavia, que os depósitos de alto valor eram do pai do caseiro, um empresário piauense, após o reconhecimento da paternidade. Nildo informou que investiu R$ 25 mil na compra de dois terrenos em Nazário (PI), para onde pretende se mudar um dia. "Ele quis se garantir para o caso de tudo dar errado por aqui", explicou o advogado. Nildo voltou a estudar e está cursando o 1º ano do ensino médio. Provavelmente por influência de Wlício, de quem se tornou amigo, está inclinado a seguir a carreira de advogado. "Ele acha que parte das suas dificuldades deriva do fato de ser nordestino, pobre e sem estudos."FILIAÇÃO Sondado para se filiar a um partido e disputar as próximas eleições, na esteira da visibilidade que alcançou, o caseiro tem dito que não vai avaliar essa hipótese no momento. "Ele está muito focado em estudar, melhorar como pessoa e se firmar na vida com os próprios esforços, sem ajuda externa ou piedade", disse o advogado.

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