''New York Times'' noticia censura contra ''Estado''

Sentença é ?amplamente vista como retrocesso?, registra diário, que relatou restrições nos anos 60 e 70

Daniel Bramatti, O Estadao de S.Paulo

01 de setembro de 2009 | 00h00

Como nos tempos da ditadura militar, a censura ao Estado é de novo tema de reportagem do jornal The New York Times. Nos anos 60 e 70, o diário norte-americano abordou as restrições impostas à liberdade de imprensa no Brasil. Na edição de ontem, o que ganhou destaque foi o veto judicial à circulação de determinadas informações.O texto faz um relato sobre a proibição de reportagens relacionadas a investigação da Polícia Federal sobre o empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). A medida foi tomada pelo desembargador Dácio Vieira, do Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Está em vigor desde o dia 31 de julho.Segundo o NYT, a determinação judicial foi "amplamente vista como um retrocesso depois de importantes avanços na remoção de restrições a uma imprensa livre"- referência à derrubada, pelo Supremo Tribunal Federal, da Lei de Imprensa herdada da regime militar.A reportagem põe a medida que atingiu o Estado no contexto de outras ameaças à liberdade de imprensa na América Latina, que partem principalmente de governantes. Exemplo mais destacado é o da Venezuela."Além do Brasil, o caso Sarney deu relevância a preocupações por toda a América Latina de que, apesar de uma década definida pela ascensão de líderes populistas que prometeram ajudar os oprimidos, muitos juízes continuam a se curvar aos caprichos dos poderosos ao censurar jornalistas", aponta o texto escrito pelo correspondente Alexei Barrionuevo."Para a família de José Sarney, a enxurrada diária de reportagens sobre nepotismo e corrupção envolvendo seu nome não dava para aguentar", diz Barrionuevo, ao descrever a ofensiva de Fernando Sarney para bloquear as reportagens. A investigação da PF incluiu a gravação de conversas telefônicas de Fernando com o pai.Ouvido pelo NYT, o diretor de Conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, declarou: "As gravações mostram um senador, com seu filho e parentes próximos, negociando empregos e benefícios como se o Senado fosse uma empresa privada, de propriedade da família".MILITARES"Um coronel do Exército brasileiro observou as primeiras milhares de cópias do da edição dominical do jornal O Estado de S.Paulo saírem das impressoras. Então ordenou a parada das máquinas e confiscou a edição." Assim começava reportagem do NYT, em 25 de setembro de 1969, sobre a ação de censores em jornais de São Paulo e do Rio.Em 1973, o diário americano voltava a abordar, de forma parecida, o mesmo drama. "Todas as noites, por volta das 23h, um censor da Polícia Federal brasileira vai à Redação de O Estado de S.Paulo, o jornal mais influente do País, lê todas as provas e corta qualquer material que trate de assuntos tabu ou que pareçam ?inconvenientes?."No fim de 1974 e início de 1975, o Estado, que completava 100 anos, foi tema de nova reportagem e de editorial no NYT. "Quase solitário entre os jornais brasileiros, o Estado firmemente se recusa a praticar a autocensura, preferindo demonstrar sua independência ao imprimir colunas de poesia nos espaços em branco deixados pelas atribuladas tesouras dos agentes do governo", dizia o editorial.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.