Egberto Nogueira/Abril
Egberto Nogueira/Abril

Neutralizar inimigos era a finalidade da ditadura

Militares descrevem como era o interrogatório e dizem que DOI não queria esclarecer crimes, mas obter informações sobre grupos e pessoas

Marcelo Godoy, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h01

A tortura no DOI tinha regras. Só os integrantes da Seção de Interrogatório podiam submeter um preso ao pau, ao choque elétrico, aos murros, enforcamentos, afogamentos e palmatórias na sede do órgão, na Rua Tutoia, no Paraíso, zona sul de São Paulo. O objetivo não era obter a confissão de crimes, como se faz em uma delegacia de polícia, O órgão obedecia a uma estratégia militar. Não era o passado que interessava, mas o presente. O que se queria eram informações sobre as organizações que levassem à captura de outros opositores, ao desmantelamento de suas estruturas, enfim, buscava-se a neutralização do inimigo.

"Dizer que passou lá e não falou está mentindo ou era mudo. O Monir (guerrilheiro da ALN) não podia falar, então escrevia. A dor é o limite do homem", contou o tenente Chico. Para o agente, entre o torturador e o preso - chamado de cliente pelos homens da Seção de Interrogatório do DOI - era travada uma luta de inteligência. "O interrogador era apoiado pelo analista. O preso logo aprendia que não podia mentir. Ele podia omitir, mas, quando mentia, vinha a pressão no dia seguinte."

Depois que Carlos Alberto Brilhante Ustra assumiu o órgão em 1970, aos poucos pôs-se ordem na atividade. Só entravam na seção pessoas autorizadas. Despia-se, batia-se, dava-se choques no preso, mas não se podia deixá-lo estropiado, contam os agentes, de tal forma que ele não pudesse levar os militares até o ponto de encontro que tivesse marcado com a organização ou a um aparelho - os imóveis mantidos por sua organização. "Você já viu o pau de arara em ação? O diabo não passa perto do pau de arara. Com certeza ele respeita e tem medo", afirmou Chico.

Os agentes que trabalhavam na seção tinham uma ordem - executar os detidos caso houvesse uma tentativa de resgate na sede do quartel. Havia momentos em que o número de presos era tão grande que faltavam torturadores para tantas pessoas. "Havia muito mito quanto ao que se fazia com o preso. Não tinha estupro. Punha-se a mulher nua, dava choque, mas estuprar jamais. Se o Ustra soubesse de algo semelhante, ele ferrava bem", disse Chico.

Nem sempre as regras eram cumpridas. "Eles batiam demais. Batiam em mulher que a gente tinha de levar no braço para apontar um aparelho. Matou-se muita gente no pau, dependurada. Nas mulheres, eles davam choques. Era um sofrimento da porra", contou o agente Nelson, que trabalhou de 1969 a 1977 no DOI e era chamado de Pai-Velho.

Terminada a sessão de pau, os homens da equipe auxiliar datilografavam os depoimentos, chamados de "interrogatório preliminar". Cada vez que o depoimento do preso era retomado, anotava-se a equipe responsável pelo novo interrogatório e o que o preso acrescentara às declarações anteriores. Qualquer informação operacional importante não parava no interrogatório preliminar. Não há neles, por exemplo, informações sobre pontos - os encontros marcados pelos militantes.

"Essas informações não eram incluídas no interrogatório, até porque esse documento não era secreto", explicou o tenente Chico. Feito em seis vias, o interrogatório preliminar era enviado a vários órgãos. O DOI usava as informações para desarticular as organizações. Quando o preso não mais lhe interessava, ele era enviado com o seu dossiê ao Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que fazia o inquérito. O processo servia para tirar o preso de circulação, colocá-lo na cadeia.

"O objetivo era identificar, neutralizar e eliminar. Essa era a função. O processo e o inquérito do Dops eram para guardar o cara depois em algum lugar", disse Chico. Em sua história, o DOI prendeu 2.541 pessoas e enfrentou 876 denúncias de tortura catalogadas pela Cúria Metropolitana de São Paulo.

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