Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Nenhum parente meu é investigado no Supremo, diz Bolsonaro

Presidente volta a rebater Sérgio Moro, que o acusou sobre tentar interferir na PF, e diz que ex-ministro terá de provar ‘acusações graves’ na Corte

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

27 de abril de 2020 | 19h33
Atualizado 27 de abril de 2020 | 21h40

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro afirmou nesta segunda-feira, dia 27, que nenhum parente dele é investigado pela Polícia Federal em inquéritos em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Ao pedir demissão, na sexta-feira, 24, então ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, acusou Bolsonaro de tentar inferir na PF e obter informações sigilosas de inquéritos abertos no Supremo.

A denúncia motivou pedidos de impeachment no Congresso por suposta tentativa de obstruir a apuração sobre filho de Bolsonaro, além de um pedido de investigação feito pela Procuradoria-Geral da República ao STF. O caso é relatado pelo ministro Celso de Mello.

“Nenhum parente meu está sendo investigado pelo Supremo”, disse Bolsonaro, nesta segunda, na portaria do Palácio da Alvorada. “O ministro que saiu (Moro) fez acusações. É bom que ele comprove, até para minha biografia. No processo do Supremo, ao contrário, ele tem que comprovar o que falou a meu respeito. Espero que o Supremo analise para tirar dúvida da acusação grave que foi feita a meu respeito, seria bom decidir o mais rapidamente possível. O ministro pode apresentar provas, se ele tiver.”

Para provar o que falava, Moro divulgou cópia de mensagem de WhatsApp trocada com Bolsonaro. Nela, o presidente envia uma notícia de que a PF investigava deputados federais do PSL, seu antigo partido, e na sequência afirma que isso era motivo para trocar o ex-diretor-geral órgão, delegado Maurício Valeixo. A exoneração do delegado Valeixo, homem de confiança de Moro, provocou o pedido de demissão e as denúncias.

“O Valeixo sempre quis sair. Estava tudo certo. Se o Valeixo estava saindo, a indicação é privativa minha. Ele (Moro) teve carta branca na Justiça. Eu não troquei nenhum superintendente, eu sugeri Rio e Pernambuco. Em Pernambuco foi mantido e no Rio a escolha foi deles”, argumentou Bolsonaro, que se negou a dizer o motivo das trocas. 

Um dos processos que corre na Corte apura disseminação de notícias falsas e difamação de magistrados, e teria chegado ao entorno do presidente e a parlamentares alinhados a ele. Outro inquérito apura a organização de ato público a favor de um golpe militar, que contou com a participação do presidente. Ambos são relatados pelo ministro Alexandre de Moraes.

A denúncia de Moro motivou novos pedidos de impeachment contra Bolsonaro no Congresso, por crimes de responsabilidade e suposta tentativa de obstruir a apuração sobre seus filhos. Também levou a um pedido de investigação feito pela Procuradoria-Geral da República à Suprema Corte. O caso é relatado pelo ministro Celso de Mello.

O procurador-geral Augusto Aras esteve no Palácio do Planalto nesta segunda e encontrou-se com Bolsonaro e com o ministro-chefe da Casa Civil, general Braga Netto. Segundo assessoria do PGR, o presidente apenas passou pela reunião agendada previamente com a Casa Civil para tratar de parcerias nas ações de combate ao novo coronavírus. Estavam presentes também os subprocuradores-gerais Célia Delgado e Hindemburgo Chateaubriand. 

Quem fica com a vaga de Moro na Justiça

Bolsonaro disse que a escolha do novo ministro, substituto de Moro, será publicada nesta terça-feira, no Diário Oficial da União. Ele afirmou que será uma “surpresa positiva” e que há dois nomes na mesa, entre eles o do atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Jorge Oliveira. O presidente elogiou ainda o advogado-geral da União, André Mendonça.

“Além do conhecimento técnico, (é preciso ter) capacidade de dialogar com os demais poderes, ter boa entrada no Supremo, no TCU, no Congresso”, disse Bolsonaro, sobre o perfil que deve ter o novo titula do Ministério da Justiça.

O presidente também confirmou que pretende indicar para o cargo de diretor-geral da PF o delegado Alexandre Ramagem. Amigo da família Bolsonaro, Ramagem é atualmente diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin).

Ele elogiou o delegado e minimizou a proximidade com sua família como fator para a nomeação. O presidente afirmou que o conheceu em outubro de 2018, logo após vencer o segundo turno, para reforçar a segurança pessoal, como policial de “extrema confiança” da PF. 

“Ele ficou novembro e dezembro quase que na minha casa. Dormia na casa vizinha, tomava café comigo e aí tirou fotografia com todo mundo, foi no casamento de um filho meu. Não tem nada a ver a amizade dele com meu filho, isso veio depois. Eu passei a acreditar no Ramagem, conversava muito com ele, trocava informações, uma pessoa inteligente, bem informada e que demonstrou ser uma pessoa da minha confiança. A partir do momento que eu tenho uma chance de indicar alguém para a PF por que eu não o indicaria? Quer que eu indique alguém que seja amigo de outras pessoas, que tenha contato com outro partido? Aí é demais.”

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