''Nem médico a gente tem mais''

Riqueza de Campos não melhora vida dos moradores

Alexandre Rodrigues, Campos de Goytacazes, O Estadao de S.Paulo

14 de abril de 2008 | 00h00

A dona de casa Daiana Rodrigues, de 22 anos, até já ouviu falar que Campos dos Goytacazes ganha "alguma coisa" com a exploração do petróleo no litoral fluminense, mas não sabe dizer o que são royalties. Moradora de Uruaí, na periferia do município, ela sabe mesmo é que o posto do Programa Saúde da Família (PSF) onde costuma buscar remédios para a filha está fechado há quase um mês.Apesar da descoberta de supersalários e de funcionários fantasmas, os profissionais do PSF, recrutados com verbas federais por meio de um contrato suspeito de terceirização que motivou a investigação da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, foram os únicos terceirizados efetivamente afastados das funções. Em meio a uma epidemia de dengue - a cidade é recordista de casos no interior do Rio, com 3.300 doentes neste ano -, os médicos, enfermeiros e agentes comunitários fazem falta para quem vive nas casas modestas das ruas sem calçamento do bairro de Daiana."Para mim, Campos não é rica. Nem o médico, que atendia direitinho, a gente tem direito mais. É muito difícil encontrar emprego aqui. Tenho vizinhos que trabalham na prefeitura, mas só de gari. Para conseguir, tem que conhecer alguém. Eu não conheço", diz a dona de casa, mãe de dois filhos.Com a suspensão do contrato da prefeitura com os dirigentes da Cruz Vermelha Brasileira, cujos dirigentes foram presos, os agentes se vêem mais uma vez desamparados. Em 2007, o programa já havia sido suspenso por 70 dias por causa de irregularidades. Até hoje, os dias parados não foram pagos. Em três anos no programa, a agente comunitária Rafaela Rangel, de 25 anos, tem na carteira de trabalho registros de três diferentes empresas terceirizadas. Com as companheiras, ela liderou um protesto na porta da prefeitura na quinta-feira em defesa do salário de R$ 460. "Por que só nós não vamos receber se todas as empresas também estavam envolvidas nessa safadeza?", queixou-se. A agente Sandra Dias, de 39 anos, diz que luta para manter o emprego porque não tem outra alternativa. "Não é fácil encontrar emprego aqui. O comércio caiu muito com esse problema na prefeitura", diz. O enfermeiro Luciano Reis, de 32 anos, reclama que o registro de empresas acusadas de fraude na carteira o impede de conseguir outro emprego. "Quando olham o registro, recusam a gente." A prefeitura informou que tenta um acordo judicial para pagar os salários atrasados diretamente aos funcionários, sem passar pelas empresas.

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