Negócios estrangeiros podem atrasar reforma agrária, diz Incra

Para instituto, áreas tendem a ficar mais caras e pequenos e médios produtores saem prejudicados

Roldão Arruda, LUÍS EDUARDO MAGALHÃES, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2006 | 00h00

O Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) teme que o aumento dos negócios fundiários que se verifica no País , com a injeção de capital estrangeiro, dificulte o avanço da reforma agrária. Acredita-se que as áreas disponíveis para a criação de assentamentos rurais tendem a ficar mais escassas, mais caras. Segundo o presidente da autarquia, Rolf Hackbart, esse movimento está associado à expansão da cultura da cana-de-açúcar, para a produção de etanol, mas não só."Estamos diante de uma realidade que vai além da matriz energética", diz ele. "Investidores internacionais, por meio de empresas brasileiras, compram terras como reserva de valor a médio e a longo prazo. Fazem isso porque há escassez de terras e porque o preço tem subido de forma significativa nos últimos anos. Na região Centro-Oeste, houve uma valorização de 24% na última década."Outra preocupação do Incra é com os pequenos e médios produtores rurais - que ficam numa situação desvantajosa perante os detentores de dólares e euros na hora de negociar terras. Daí o fato de a autarquia estar articulando, juntamente com o Ministério do Desenvolvimento Agrário, uma revisão das leis que tratam da compra de terras por estrangeiros.De acordo empresas de consultoria na área do agronegócio, a maior parte dos investidores estrangeiros que desembarcam no País atrás de negócios com etanol e biodiesel destina quase todo o seu capital para a compra de usinas. Poucos compram imóveis. Preferem arrendá-los, seguindo o exemplo dos usineiros brasileiros.Uma das exceções é a Adecoagro, empresa de capital argentino e americano e que tem o multimilionário George Soros entre seus acionistas. Proprietária de quase 30 mil hectares de terras no País, nos quais produz soja, milho, algodão e café, a Adecoagro investe agora na compra de uma área de 150 mil hectares em Mato Grosso do Sul, para a produção de cana.Os negócios com terras são mais freqüentes nas regiões de fronteira agrícola, onde a possibilidade de valorização imobiliária é maior. É o caso do extremo oeste da Bahia, de partes de Mato Grosso e do Maranhão. No oeste baiano, fazendeiros americanos compram terras em áreas sem energia elétrica e onde as estradas são precaríssimas. Apostam na capacidade de produção da região - especialmente de soja, milho e algodão - e na valorização dos imóveis.De acordo com Oziel de Oliveira, prefeito de Luís Eduardo Magalhães, a mais próspera cidade da área, a 900 km de Salvador, os estrangeiros formam a terceira leva de colonizadores. "A primeira foi com o pessoal do Sul do País, que veio plantar arroz e soja. Depois vieram os paulistas e mineiros, com café, fruticultura e pecuária. E, agora, os americanos, australianos, holandeses, com algodão, milho..." Ainda segundo Oliveira, que é paulista, cerca de 1,5 milhão de hectares já estão produzindo na região: "Mas ainda existem outros 3 milhões para serem explorados, já considerando todas as áreas que devem ser preservadas."

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