ANDRÉ LESSA/AE
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'Negociar com bancadas em vez de partidos é erro de estratégia', diz analista sobre Bolsonaro

Christopher Garman, diretor da Eurasia, é cético sobre sucesso de reforma da Previdência sem negociação com partidos

Beatriz Bulla, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2018 | 19h03

WASHINGTON - Para Christopher Garman, diretor para Américas da consultoria de risco político Eurasia, um dos maiores desafios do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro, é aprovar uma reforma da Previdência sem fazer negociação de cargos com partidos políticos. “A proposta do governo é negociar com as bancadas. Não vejo como isso vai funcionar”, afirma Garman, em referência à sustentação de Bolsonaro junto a bancadas como a ruralista e a evangélica.

Entre as plataformas de governo de Bolsonaro está a redução do número de ministérios e o fim da negociação de cargos no governo em troca de coalizão no Congresso. Na prática, no entanto, o diretor da Eurasia é cético sobre o sucesso de uma política que deixe de lado a negociação com os partidos.“Quando se negocia com líderes partidários, se alguém vota contra, há ferramentas para disciplina. Já as bancadas não têm”, afirma Garman. Para ele, a nova forma de negociação de Bolsonaro viola a forma como os governos obtêm vitórias no sistema político brasileiro. 

Os partidos políticos possuem mecanismos de controle e punição no caso de deputados ou senadores que não acompanham a definição do partido em votação no Congresso, quando a sigla decide “fechar questão” sobre um assunto. Na visão de Garman, essas ferramentas dão eficácia à negociação do governo com um partido político em torno de uma proposta, como a reforma da Previdência. Já nas bancadas suprapartidárias reunidas em torno de interesses, segundo ele, não há um mecanismo de controle dos integrantes. 

“É um erro de estratégia”, disse o analista político. As observações sobre o novo governo foram feitas por Garman durante evento sobre perspectivas para o Brasil organizado pelo Brazil Institute no think tank Wilson Center, em Washington. Segundo ele, é esperado que Bolsonaro distribua algo em termos de cargos em menor escalão ou emendas, mas ainda assim "ele não entregará o que os partidos tradicionais estavam acostumados a receber. "É o desafio número um", afirmou.

Garmen menciona ainda que o novo governo terá mais um desafio: no novo Congresso eleito, parlamentares considerados reformistas perderam cadeiras em maior proporção do que aqueles tidos como antirreforma. “Tivemos um tsunami em Brasília”, afirma Garman.

Segundo ele, Bolsonaro precisará tentar implementar uma reforma da Previdência de maneira rápida e que tenha algum suporte público. “Se o governo conseguir algo [de reforma], podemos entrar num ciclo positivo virtuoso”, afirmou. Segundo ele, avançar a agenda pode estimular agendas de desburocratização, negociações comerciais e investimentos. “Temos muitas companhias buscando investimentos; há um espaço para crescer e, se for possível, conseguir a estabilidade”, afirmou.

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