Capítulo 19

Negociação para fazer Eduardo embaixador vira prioridade ‘zero, zero’ do Planalto

Filho do presidente ainda não tem votos suficientes para que seu nome receba sinal verde do Senado, onde passará por uma sabatina

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2019 | 17h15

Caro leitor,

O Palácio do Planalto faz de tudo para emplacar o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) como embaixador do Brasil em Washington. Agora, a oferta apresentada aos senadores é a de um “pacote”, que inclui a liberação de emendas parlamentares para quem aprovar a reforma da Previdência e a indicação de Eduardo, o filho “zero três” de Jair Bolsonaro.

A vida do presidente, porém, não está nada fácil no Congresso. Parlamentares chegaram a apresentar ao governo uma “fatura” antecipada, que inclui a cobrança por “joias da coroa” do setor energético, como Furnas e Eletronorte. Outro grupo mandou avisar Bolsonaro que não aceitará uma negociação no modelo “pacote”, porque cada votação precisa ser tratada de forma separada.

Aquele “banco de talentos” anunciado em fevereiro, com pompa e circunstância, para o preenchimento de cargos em estatais, autarquias e repartições federais não durou uma noite de verão. Às vésperas da primavera ainda há muitos postos cobiçados no Ibama, na Funasa, no DNIT e assim por diante, mas o governo cada vez mais vincula a distribuição de cargos ao apoio político. Para tanto, até mesmo as redes sociais de deputados e senadores estão sendo monitoradas pelo Planalto, como você pode ler nesta reportagem

A prática do “toma lá, dá cá” contradiz a pregação de Bolsonaro e destrói o discurso oficial da “nova política”. Mas, no clã dos “zero um, dois e três”, a prioridade “zero, zero” é aprovar Eduardo como embaixador.

O plano do presidente de usar a caneta Bic para formalizar a indicação do caçula apenas em outubro embute uma estratégia.  Presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, Eduardo ainda não tem votos suficientes para que seu nome receba sinal verde do Senado, onde passará por uma sabatina. Até o mês que vem, no entanto, o Planalto espera “quitar” todas as “dívidas” com os parlamentares, na esteira do desbloqueio de uma fatia do Orçamento.

Enquanto isso, o senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) – primogênito do presidente – leva Eduardo a tiracolo para ouvir e ser ouvido em jantares na casa de colegas. Articulador do governo nos bastidores, Flávio apresenta o irmão aos seus pares, na tentativa de mostrar que os conhecimentos do “zero três” vão muito além da fritura de hambúrguer.

Investigado no caso Fabrício Queiroz – o ex-assessor da Assembleia do Rio, suspeito de obrigar servidores a devolver parte do salário –, Flávio também tem atuado para desidratar a CPI da Lava Toga. A comissão parlamentar de inquérito foi proposta para apurar acusações contra integrantes do Supremo Tribunal Federal.

Com quatro senadores, a bancada do PSL – partido de Bolsonaro – rachou por causa desta CPI.

Ameaçada de perder o mandato por denúncias de caixa dois e abuso do poder econômico na campanha, Juíza Selma – conhecida como “Moro de saia” – acusou Flávio de pressioná-la para retirar a assinatura favorável à abertura da CPI e anunciou a saída do PSL. Seu destino será o Podemos, partido que quer se transformar em trincheira dos “moristas”, hoje em confronto aberto com um grupo de “bolsonaristas”. 

“Quem tem de cair fora do PSL é o Flávio, não ela. Gostaria que ele saísse hoje mesmo”, disse Major Olímpio (SP), líder do partido no Senado, à Coluna do Estadão

A portas fechadas, o ministro da Justiça, Sérgio Moro – ex-juiz da Lava Jato –, também age para manter o controle da Polícia Federal, que tanto incomoda Bolsonaro. Até mesmo amigos de Moro dizem que, se ele perder o poder de indicação na PF, ficará desmoralizado.

Ao que tudo indica, a tão falada “carta branca” dada pelo presidente ao ex-juiz -- que já perdeu o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e vê seu pacote anticrime ser desfigurado -- nunca passou de promessa.

Com a popularidade em queda, Bolsonaro cola sua imagem na de Moro, que ainda tem mais prestígio. Já anunciou que será candidato à reeleição, em 2022, e há quem diga que o ministro pode ser seu vice – uma hipótese encarada com ceticismo, em razão dos recentes atritos ente os dois.

O estilo beligerante do presidente e as trapalhadas cometidas até agora por ele, no entanto, provocaram a antecipação de movimentos em busca de uma alternativa de centro para a sucessão de 2022.

Um grupo de políticos e empresários quer construir a candidatura do apresentador de TV Luciano Huck, que é próximo do Cidadania (ex-PPS) de Roberto Freire e de movimentos de renovação. A ideia é unir uma agenda liberal na economia com propostas consideradas progressistas no capítulo social, como mostrou o Estado

Nessa maratona, porém, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), procura dar nova fisionomia à centro-direita. Com Bolsonaro na mira, Doria tenta aparecer como contraponto ao presidente.

Nem sempre foi assim. Em janeiro, pouco antes de embarcar para Davos, na Suíça, onde participou do Fórum Econômico Mundial, Bolsonaro tranquilizou Doria sobre 2022. “Não se preocupe porque vou guardar o meu lugar para você”, afirmou ele, na ocasião.

De lá para cá, contudo, o caldo entornou de vez. Mas, apesar das críticas ao presidente, Doria “comprou” a pauta de costumes, que tanto atrai os evangélicos – um eleitorado bastante expressivo, representante de 29% da população.

Nos bastidores, porém, aliados do tucano no Centrão dizem que ele está cometendo “um erro” ao subir no palanque, três anos antes, para tentar abocanhar o mesmo eleitorado de Bolsonaro. A avaliação é a de que, além de não ter nada a ganhar, Doria ainda pode perder porque, entre o original e o genérico, os eleitores tendem a ficar com o original.

A dúvida, nesse caso, é saber se o original não perde a validade até 2022.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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