Valter Campanato/Divulgação
Valter Campanato/Divulgação

Negar tortura seria 'idiotice', diz oficial subordinado de Ustra

Ex-chefe de equipe do DOI-Codi, Moézia de Lima nega ter cometido abusos, mas atribui atos a policiais do Dops

BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2014 | 02h00

Em depoimento que deu ontem à tarde à Comissão Nacional da Verdade, o coronel da reserva Pedro Ivo Moézia de Lima, que foi chefe de equipe no Destacamento de Operações e Investigações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) de São Paulo, entre 1970 e início de 1972, admitiu que agentes do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) praticavam tortura contra presos políticos.

"Eu imagino que possa ter havido (tortura), eu seria um inocente de bancar o idiota aqui na frente de vocês", afirmou aos integrantes da CNV. "Quem nos ensinou a trabalhar foi a Polícia Militar e a Civil. A Civil era do Dops e lá era na base do pau. Mas, lá dentro do DOI-Codi, eu nunca vi, não encostei a mão".

Na época, o DOI-Codi era chefiado pelo coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, que a Justiça de São Paulo reconheceu como torturador. Em seu depoimento, o coronel de reserva acrescentou que, geralmente, o preso político já vinha "trabalhado" da Polícia Civil. Moézia voltou a poupar o setor onde atuava: "Na minha equipe, ninguém batia em ninguém".

O depoimento foi presenciado pelo ouvidor da CNV, Adilson Carvalho, pelo assessor da Comissão, André Vilaron, e pelo coordenador da Comissão, Pedro Dallari. Descrevendo sua atividade, Moézia de Lima se classificou como "um curinga", que atuava como administrador do órgão, chefe de equipe de buscas e capturas e homem de interrogatórios.

Ele defendeu o coronel Brilhante Ustra, de quem se disse amigo pessoal e que ele considera "um herói", que não pode ser responsabilizado pelo sistema de repressão: "O Ustra foi o comandante daquele inferno".

Para Dallari, aparentemente, Moézia de Lima não fez parte do grupo que "sujou as mãos" nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo e no Rio. Mas o depoimento dele é importante, prosseguiu Dallari, porque confirma a prática de violações de direitos humanos no centro de repressão militar de São Paulo. "Muitos sujaram as mãos", resumiu Dallari. "Ele (Moézia de Lima) e o Belham, não (sujaram). O Ustra, sim". / L.N.

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