Navegando entre princípios e negócios

O Brasil tem uma oportunidade histórica de aliar seu dinamismo econômico à convivência entre raças e a uma política externa humanista

Marco Antonio Villa

09 de agosto de 2010 | 00h11

A política externa do governo Lula tem se caracterizado pelo absoluto desprezo aos direitos humanos. Segundo o ministro Celso Amorim, o que importa são os negócios. Foi assim que justificou a visita à Guiné Equatorial, governada por um tirano há mais de três décadas. Da mesma forma que fechou os olhos aos ataques às liberdades democráticas que ocorre de forma sistemática na Venezuela.

 

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Para o Itamaraty, eleições livres, defesa das liberdades democráticas, alternância do poder, respeito às minorias nacionais, tudo isso é absolutamente irrelevante, "coisa de poeta". De acordo com Amorim, uma potência mundial não tem princípios, só interesses. Esta diplomacia sonha transformar o Brasil em um país com presença mundial e agindo conforme as regras do jogo estabelecidas nos últimos dois séculos. Daí que não seria exagero imaginar até a retomada do programa de construção da bomba atômica, adotando velhos argumentos, como o de que não é "democrático", como disse o presidente Lula, que somente alguns países tenham acesso ao domínio completo da tecnologia nuclear.

 

Isto pode explicar a leniência da diplomacia quando teve de enfrentar nos fóruns internacionais as questões relacionadas aos direitos humanos. O Brasil não apoiou as pressões contra o governo do Sudão que pratica há anos, na região de Darfur, um verdadeiro genocídio. Silenciou. Em outros momentos, apoiou entusiasticamente ditaduras e racistas, como as ironias de péssimo gosto em relação aos presos políticos cubanos ou a sustentação de um candidato à direção da Unesco, o egípcio Faruk Hosni, que é um conhecido defensor do antissemitismo. E, nos últimos dias, quando Lula considerou "uma avacalhação" interceder junto ao governo iraniano para salvar da morte por lapidação a iraniana Sakineh Ashtiani - para, posteriormente, fazer um pedido envergonhado de concessão de asilo, algo absolutamente descabido.

 

Nada mais antibrasileiro do que a defesa do racismo e do ódio entre as raças. Uma das conquistas históricas do Brasil são a mestiçagem e o enfrentamento do racismo. Depois de tantos percalços, a democracia se consolidou. E um país com a nossa história não pode desprezar estes triunfos. Mas a política externa lulista não dá a mínima importância. Não considera a democracia um valor universal. Assumiu, como se fosse um prato recém-preparado, o requentado discurso terceiro-mundista. E pior: em um mundo multi-polarizado.

 

O Brasil deve deixar de contemporizar com governos que violam as leis internacionais, ignoram os contratos e desprezam a democracia. Não pode achar que valores históricos devam ser trocados por mercadorias. Princípios não são commodities. O nosso compromisso é com os povos e não com ditadores. Não é ingenuidade estabelecer uma política de princípios. Pelo contrário. Temos de romper com a hipocrisia de que o mundo sempre foi assim, que as potências têm interesses e não amigos.

 

O Brasil tem neste momento uma oportunidade histórica. Pode aliar o dinamismo econômico, a experiência da convivência de diferenças raças e religiões, a uma política externa que tenha princípios democráticos. Seria bom que o Itamaraty voltasse a ler o Barão do Rio Branco. A 1º de dezembro de 1902, depois de um quarto de século longe do País, pouco antes de assumir o ministério, a convite do presidente Rodrigues Alves, Rio Branco lembrou que prestou inúmeros serviços ao País mas o fez "porque defendia causas que não eram de uma parcialidade política, mas sim da nação inteira."

 

E concluiu: "Não venho servir a um partido político, venho servir ao Brasil."

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