Nas urnas, antipetismo é a nova força política

Além de Dilma obter pior desempenho presidencial desde 2002, partido sente queda no voto de legenda e candidatos estaduais evitam o vermelho

JOÃO DOMINGOS, FÁBIO BRANDT, BEATRIZ BULLA, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h00

BRASÍLIA - O PT se "disfarçou", escamoteou o vermelho do material de campanha e os botons estrelados escassearam das lapelas dos candidatos e de parte dos eleitores. Mas a reforma estética não impediu que o partido se desidratasse politicamente. Resultado: qualquer que venha a ser o vencedor da eleição presidencial, os números do 1.º turno mostram que a disputa deste ano consolidou o antipetismo como a principal força política que rivaliza com o PT no País.

As urnas sinalizaram isso. Na disputa ao Palácio do Planalto, a presidente Dilma Rousseff teve a menor votação no 1.º turno entre candidatos petistas desde a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002, ficando com 41,6% dos votos, porcentual menor do que o obtido em 2010 (46,9%). A bancada de deputados federais da sigla foi de 86 para 70. Em relação a 2010, a perda de votos do PT para a Câmara dos Deputados foi de 3 milhões.

Também houve queda no voto na legenda - que normalmente identifica a confiança do eleitor na sigla. Menos pessoas apertaram apenas o "13" na urna, e nessa queda há um dado simbólico: pela primeira vez em 24 anos, o PT não é o partido com maior participação do voto de legenda no total obtido.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral mostram que, desde 1990, o PT era o partido com mais votos de legenda. Em 1994, metade da bancada foi formada com esse tipo de apoio, e não pelo voto dado a um determinado candidato. Em 2014, 21,6% dos votos do PT para a Câmara foram para a legenda, e não para um político específico, abaixo dos 23,8% que digitaram apenas "45", número do arquirrival PSDB, em relação ao total de votos obtidos pelos tucanos.

Sem vermelho. Ao identificar o movimento contrário ao PT, candidatos a governador chegaram a evitar o uso da estrela petista e da cor vermelha, a exemplo de Delcídio Amaral, em Mato Grosso do Sul. Ele disputa o 2.º turno com o tucano Reinaldo Azambuja. No Paraná, Gleisi Hoffmann evitou o vermelho, mas não adiantou: a ex-ministra ficou em terceiro lugar. Em outros Estados com 2.º turno, a identificação dos candidatos também se divide entre "petistas" e "antipetistas", independentemente da filiação partidária.

O próprio meio político identifica esse movimento. O presidente do PDT, Carlos Lupi, da base aliada de Dilma, diz que "existe uma polarização no País que aglutina as duas maiores forças, uma a favor do PT e outra contra". "Sempre que há esse tipo de divisão na sociedade, a tendência é que duas forças antagônicas se oponham."

"Há um claro movimento antipetista nesta eleição", diz outro aliado, o presidente do PP, Ciro Nogueira (PI). Da oposição, o presidente do DEM, senador Agripino Maia (RN), atesta: "O antipetismo é um fato. E o candidato Aécio Neves (PSDB) se tornou o galvanizador desse movimento".

Sob análise. Vice-presidente do PT, o deputado reeleito José Guimarães (CE) acredita que a rejeição ao partido e a falta de votos em candidatos precisam ser mais estudadas. "Claro que existe um movimento contrário ao PT. Isso precisa ser analisado mais à frente. Mas é preciso lembrar que fomos muito mal em São Paulo não só por causa disso. E que em outros Estados fomos muito bem, elegendo três deputados no Acre, oito na Bahia, dez em Minas Gerais."

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