Nas ruas, o debate político 'fast-food'

Para cientista político, ‘neopolitizados’ repetem senso comum e não constroem cultura política

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2016 | 04h00

Tudo aconteceu muito rápido. Às 6h da manhã, de um dia qualquer, o Japonês da Federal bateu na nossa porta trazendo debaixo do braço um quilo de consciência política. Acordamos, então, em um País diferente. Agora, somos neopolitizados, convertidos e apaixonados pelo debate público. Incorporamos, cotidianamente, conversas sobre meandros do STF, regimento do Congresso, ritos do processo de impeachment e... “Se a Dilma sair quem assume é o Aécio”, disse o polidor de metais Francisco dos Santos, 28 anos.

Em visita ao centro da cidade, o Estado perguntou aos entrevistados, entre outras coisas, quem assumiria a Presidência caso Dilma Rousseff sofresse o impeachment. Respostas como “não sei”, “Aécio” e “Lula” foram tão ouvidas quanto “Temer”. Portanto, se tudo não passou de um sonho, e o Japonês da Federal nunca nos conduziu (coercitivamente ou não) ao universo da cultura política, de onde estariam surgindo todas essas certezas que têm sido gritadas nos atos contra ou pró-governo?

“Parte do que se diz nas manifestações vem do senso comum. Quando chamamos alguém de coxinha ou mortadela, comunista ou fascista, não estamos discutindo política. Estamos repetindo o senso comum”, diz o cientista político e diretor do Insper, Carlos Melo. “Não estamos vivendo um momento de construção do conhecimento político, estamos vivendo um momento de conflito. Conversar sobre política demanda diálogo, disposição para ouvir, refletir e responder. Estamos longe disso.”

Humberto Dantas, cientista político e conselheiro da Fundação Konrad Adenauer, tem larga experiência no ensino de política para jovens. “Não importa se o estudante é de alta ou baixa renda, as dúvidas sobre nossa estrutura política são simplórias. Muitos não sabem pra que serve o Legislativo ou o que faz um vereador”, diz.

O diretor executivo da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), Marcos Vinícius de Campos, afirma que, embora o conhecimento sobre política seja precário ou inexistente, as manifestações precisam ser respeitadas. “A falta de entendimento não tira o direito legítimo das pessoas de se posicionar ou protestar.”

Em 2014, o professor de economia da Princeton University Bryan Caplan lançou o controverso livro The Myth of the Rational Voter (O Mito do Eleitor Racional). Na obra, Caplan tenta mostrar que a maioria dos eleitores vota de forma irracional. Segundo ele, os eleitores gravitam em torno de alguns enganos. Nos EUA, por exemplo, pesquisas revelam que quase metade do eleitor médio crê que grande parte do orçamento federal seja dirigida para “ajudas externas”. Embora não seja verdade, essa crença define o voto de parte do eleitorado.

Por e-mail, Caplan foi conciso ao responder sobre a possibilidade de encontrar eleitores irracionais no Brasil. “Eu não conheço nenhum País em que as pessoas sejam razoáveis quando se trata de política.”

Para Dantas, nossa incipiente cultura política tem prejudicado a formação e o aparecimento de jovens no cenário partidário. “Para ascender dentro de um partido, os interessados acabam se enfiando nessas estruturas carcomidas, nos gabinetes dos deputados, nas campanhas... Infelizmente, não sobe quem se empenha, mas quem lambe com mais força.” O mais grave, diz ele, é que “os partidos são pagos com dinheiro público para formar seus quadros”.

Ele se refere ao dinheiro que vai do Fundo Partidário às fundações partidárias. “As fundações não fazem um trabalho de formação, mas de doutrinação partidária. Antes da doutrinação, tinha que ter educação nas escolas e em outros espaços.”

Melo acredita na educação política nas escolas, mas adverte para o papel dos professores. “Como fazer isso sem doutrinação? Como passar conhecimentos sem passar opinião?”

Jogo. É possível digerir política na mesma velocidade que se come um hambúrguer? Essa é a pergunta que o coletivo Lab Hacker quer responder com o projeto Fast Food da Política. “Adaptamos jogos com duração de 5 a 15 minutos. As pessoas podem rir, passar vergonha, refletir e aprender uma regrinha do sistema político”, diz Gustavo Alencar, do Lab Hacker. Os jogos tentam esmiuçar a política para o cidadão comum – o participante simula o funcionamento da Câmara e aprende como tramita uma lei. No ato de 13 de março, o coletivo foi à Paulista, mas alguns não souberam brincar. “O ‘Twister da Política’ (tapete com rostos de políticos no qual as pessoas apontam de que partido são) foi usado para tirar foto da Dilma sendo pisada.”

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