Gabriela Biló/Estadão
Em Brasília, ambulantes pretendem faturar com o movimento gerado pelos atos do dia 7 de setembro.  Gabriela Biló/Estadão

Nas redes, mobilização para o 7 de Setembro não fura a ‘bolha’

Monitoramentos indicam que maioria das postagens sobre atos governistas no dia 7 de setembro foi feita por uma minoria mais engajada

Samuel Lima, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

O núcleo de apoio ao presidente Jair Bolsonaro conseguiu fazer barulho nas redes ao sustentar que a manifestação governista do feriado de 7 de setembro será “gigante”, mas o real impacto da convocação nas ruas ainda é incerto. Dados de monitoramento indicam que o assunto está mais presente na internet do que em outros atos governistas, mas também denunciam uma ação concentrada em determinados perfis e baixo engajamento fora do campo bolsonarista mais fiel.

De acordo com um levantamento da consultoria Bites, foram registradas 2,43 milhões de menções ao ato do Dia da Independência no Twitter entre os dias 18 e 31 de agosto. Na manifestação anterior, em que bolsonaristas pediram a adoção de um registro de voto impresso, o número de postagens nas redes era de 2,04 milhões com a mesma antecedência.

Essa presença no Twitter, por outro lado, tende a ser impulsionada por uma minoria de contas mais ativas. Uma reportagem do Núcleo Jornalismo, com base em 590 mil posts na rede social entre os dias 24 e 31 de agosto, apontou que apenas 12% dos perfis responderam por mais de dois terços dos tuítes sobre o 7 de setembro. O dado atesta que o debate está mais limitado a um grupo específico.

A concentração das conversas em uma espécie de “bolha bolsonarista” aparece ainda em um estudo do Laboratório de Pesquisa em Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), realizado a pedido do Estadão. Raquel Recuero, que coordenou a pesquisa, relata que o grupo de direita apoiando o 7 de setembro parece bastante fechado e homogêneo, orbitando entre contas de políticos e influenciadores alinhados a Bolsonaro.

“O que nos parece sintomático é que, geralmente quando se tem uma grande manifestação, como em 2013, ela derrama para a sociedade civil, em vez de incluir apenas grupos partidários”, afirmou Recuero. “Esse derramamento não está presente.”

A tônica dos discursos sobre as manifestações de 7 de setembro teve variações nas últimas semanas. Uma análise da consultoria Quaest mostra que, na primeira semana de agosto, quando a mobilização era tímida, o assunto principal no Twitter ainda era a defesa do “voto impresso”, com 42% da amostra. Porém, rejeitada na Câmara dos Deputados, a proposta esfriou e passou a ser ofuscada por uma narrativa de que grupos não deixam Bolsonaro governar, em especial o Supremo Tribunal Federal (STF) e o ministro Alexandre de Moraes. O discurso pela “liberdade” e “contra o STF” dominou as conversas na terceira semana de agosto, quando a quantidade de menções quadruplicou no Twitter.

Felipe Nunes, cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e diretor da Quaest, observa nesse movimento uma tentativa de resgate do presidente como uma figura anti-sistema — lembra, na opinião dele, o episódio em que Bolsonaro publicou um vídeo se comparando a um leão perseguido por hienas.

Pelo levantamento da consultoria, o tema da “liberdade” definitivamente assumiu protagonismo depois que o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, arquivou um pedido de impeachment de Moraes apresentado por Bolsonaro. Na medição mais recente, respondia por 66% dos comentários. Já as menções “contra o STF” ficaram em um distante segundo lugar (14%), ao mesmo tempo que comentários referentes ao ex-presidente Lula (PT) se tornaram mais frequentes (10%).

Dentro desse conceito amplo de liberdade, cabem diversas acusações de censura ao conservadorismo. Viralizaram nas redes sociais conteúdos afirmando que o ministro Alexandre de Moraes tentava “sufocar” as manifestações por abrir inquérito contra o cantor Sérgio Reis e o deputado Otoni de Paula (PSC-RJ); críticas ao governador João Doria (PSDB) por afastar um comandante da Polícia Militar que incentivou o ato pró-Bolsonaro; denúncias quanto a uma “manobra” da esquerda de organizar protesto na mesma data e local.

Reação

Guilherme Felitti, fundador da empresa de análise digital Novelo Data, argumenta que a mudança de foco também está relacionada a ações do Judiciário que atingem influenciadores bolsonaristas e aliados políticos. No YouTube, o jornalista constatou a remoção de mais de 1.500 vídeos de canais de extrema-direita depois da prisão do ex-deputado e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, e da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de suspender a monetização de contas investigadas por propagar fake news. “A partir do momento que houve a prisão do Roberto Jefferson, o bolsonarismo deu um passo para trás”, afirmou Felitti.

O professor Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), também interpreta esse abrandamento como uma resposta ao “contra-ataque das instituições”, mas encara essa postura com ceticismo. “Somente quando o ato acontecer é que veremos de fato se essa relação mais hostil entre as instituições será reforçada ou não.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Indivíduos agem como porta-vozes de grupos e categorias

Vídeo de caminhoneiro do interior de Goiás com ofensas a ministros do STF foi visto por 2,4 milhões no Facebook

Samuel Lima, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

Um dos vídeos mais compartilhados no Facebook sobre as manifestações de 7 de setembro é uma gravação do pastor Silas Malafaia e de outros líderes evangélicos convocando os fiéis para a Avenida Paulista. Os pastores se revezam falando sobre a defesa da liberdade, da democracia e do Brasil. “O povo cristão jamais se calará”, completa o empresário Tomé Abduch.

Em outra gravação com grande alcance na rede, um caminhoneiro fala da cidade de Porteirão, em Goiás, chamando a “categoria da rodagem” para dar uma resposta aos “urubus de toga” no ato de 7 de setembro. O vídeo acumulou mais de 2,4 milhões de visualizações na rede social. 

Como mostrou uma série de reportagens do Estadão ao longo da semana, esses dois grupos — e também ruralistas e policiais — demonstraram uma participação mais ativa na convocação. Esse cenário também se reflete no ambiente virtual, conforme um levantamento da AP Exata divulgado no dia 1º de setembro. Evangélicos e caminhoneiros representaram 16,7% e 10,5% das menções relacionadas ao evento no Twitter, o maior patamar entre duas manifestações governistas recentes.

Nesse contexto, a apresentação de personagens como representantes de uma parcela majoritária de suas categorias — notadamente evangélicos, caminhoneiros, ruralistas, policiais e militares — foi outra estratégia explorada pela base aliada do presidente. O caminhoneiro “Zé Trovão” e o coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e presidente da Ceagesp Ricardo Mello Araújo, por exemplo, foram festejados nas redes de Carla Zambelli (PSL-SP).

O pesquisador Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que está monitorando 110 grupos bolsonaristas no Telegram, observa que a mobilização para o 7 de setembro parece estar mais “institucionalizada” do que em eventos anteriores. David Nemer, professor da Universidade de Virgínia que pesquisa as interações no WhatsApp, analisa o cenário de forma semelhante.

“Não dá para mensurar realmente se as ruas terão grande adesão ou não, mas estamos vendo um interesse de poucos para criar esse ambiente de que a massa está aderindo. Nos protestos anteriores, era mais orgânico, de baixo para cima”, relata Nemer, fazendo a ressalva de que a convocação também ocorre por outros meios além das redes sociais. 

Caio Machado. pesquisador da Universidade de Oxford e diretor do Instituto Vero, lembra que uma parcela significativa dos conteúdos de teor político circulam de forma oculta, por meio de redes criptografadas, como aplicativos de mensagem. Ainda assim, existe direcionamento de conteúdo.

“A mobilização a partir dos grupos se dá em um efeito cascata”, comenta Machado, citando um mapeamento de WhatsApp feito durante as eleições de 2018. Na época, essa pesquisa identificou que várias pessoas se repetiam entre os grupos, moderavam esses espaços e os alimentavam rotineiramente com a mesma produção pré-fabricada.

Desinformação. O Estadão Verifica publicou quatro checagens de conteúdos falsos que mencionavam diretamente o 7 de Setembro. Um deles era um vídeo de um acampamento indígena em Brasília, que circulava como uma preparação dos apoiadores de Jair Bolsonaro. Outro era um suposto áudio da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, defendendo uma greve de caminhoneiros e uma intervenção militar, mas a autoria não é dela.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.