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Não tem refresco

A oposição ainda não tem estruturada uma linha de atuação, mas já tem clareza de que vai se manter na ofensiva. Exatamente como faria o PT se tivesse perdido a eleição. O recolhimento a uma posição meramente defensiva equivaleria, na avaliação de primeiro momento, a ignorar parcela expressiva da sociedade que votou contra o atual governo.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2014 | 02h02

Ainda que não fosse tão significativa como mostrou o resultado final, um país democrático não funciona normalmente sem o contraponto de uma oposição consistente. A partir desse entendimento básico é que os oposicionistas vão traçar suas estratégias. O PSDB aguardará a volta do senador Aécio Neves depois de um período de descanso para formalizar os planos, mas as conversas estão em curso.

Os demais partidos que se aliaram à candidatura tucana se movimentam cogitando a possibilidade de fusões ou formações de blocos no Congresso para fazer frente à maioria governista que, embora tenha sofrido baixas, ainda é muito superior. O PPS e o DEM seguem ao lado do PSDB e o PSB, embora tenha hoje maioria de tendência oposicionista, precisa resolver suas questões internas, pois há seções regionais que preferem voltar à aliança com o Planalto.

Quanto ao diálogo proposto e à mão estendida oferecida pela presidente Dilma Rousseff em seu discurso de vitória e nas duas entrevistas dadas no dia seguinte, são gestos percebidos como manobra para ganhar tempo e desmobilizar a oposição, no intuito de "esfriar" o entusiasmo com o apoio recebido na eleição. Daí a rejeição à proposta de trégua.

Essa posição mais contundente agora tem a ver com o clima da campanha, mas reflete também um aprendizado de grande parte do tucanato que se encantou com Dilma logo no início do primeiro mandato em 2011 quando ela se mostrou mais conciliadora que Lula e, por ocasião do aniversário de 80 anos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, enviou uma carta de cumprimentos cheia de elogios pessoais e referências positivas às realizações do governo dele.

Na época o ato foi interpretado como a estreia de uma fase nova marcada pelo distanciamento entre Dilma e Lula. Um engano que demorou a ser percebido. Tratava-se apenas de uma tentativa de reconquistar parte da classe média já um tanto farta dos arroubos do ex-presidente e de entorpecer, ainda que temporariamente, a oposição.

Por essa e tantas outras ocorridas na sequência, culminando com o espetáculo do rebaixamento produzido na campanha é que a presidente esgotou seu crédito de apelar à união e chamar o adversário para o diálogo amigável.

Marina em cena. Marina Silva não resolveu como atuará na política daqui em diante. Vai discutir o assunto com seu grupo ligado ao partido Rede Sustentabilidade, ainda pendente de registro na Justiça Eleitoral, nas próximas semanas.

De acordo com a educadora Neca Setúbal, só uma coisa é certa: Marina não ficará fora da cena como ficou depois da eleição de 2010, quando se recolheu até reaparecer para organizar a Rede. A forma não está decidida, mas o conteúdo serão suas causas conhecidas.

Será mistério? O PSDB procura uma explicação para a derrota de Aécio Neves em Minas Gerais, onde os tucanos acreditavam que teriam de dois a três milhões votos a mais que Dilma Rousseff. Tiveram 500 mil a menos no segundo turno e perderam a eleição para governador.

Talvez a razão não seja tão misteriosa. A autoconfiança em excesso é companheira da lei do menor esforço. Além disso, Aécio nunca se mostrou ao eleitorado mineiro como um adversário contundente do PT. Ao contrário: Fernando Pimentel quando prefeito foi um aliado do governador, combatido por petistas pelo "cacoete" tucano.

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