Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

‘Não tem orientação nenhuma ali’, diz Moro sobre conversa com Dallagnol

Ministro não confirma autenticidade de diálogos e Dallagnol vê ‘ataque gravíssimo’ à Lava Jato

Redação, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2019 | 14h43
Atualizado 11 de junho de 2019 | 10h51

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, e o procurador da República Deltan Dallagnol disseram nesta segunda-feira, 10, ser “normal” o diálogo extraoficial entre juízes e integrantes do Ministério Público, e defenderam a isenção da Operação Lava Jato. “É muito natural, é normal que procuradores e advogados conversem com o juiz mesmo sem a presença da outra parte”, disse Dallagnol em vídeo publicado nas suas redes sociais. “Não há orientação nenhuma”, afirmou Moro, ao desembarcar em Manaus, onde cumpriu agenda.

No domingo, o site The Intercept Brasil divulgou supostas trocas de mensagens, no aplicativo Telegram, entre o então juiz da 13.ª Vara Federal de Curitiba e o coordenador da Lava Jato. O conteúdo, segundo o site, sugere que Moro orientou investigadores, sugeriu mudança da ordem de fases da operação, deu conselhos, forneceu pistas e antecipou decisão a Dallagnol.

“Não tem nenhuma orientação ali naquelas mensagens. E eu nem posso dizer que são autênticas, porque, veja, são coisas que aconteceram e, se aconteceram, foram há anos. Eu não tenho mais essas mensagens. Eu não guardo, não tenho registro disso. Mas ali não tem orientação nenhuma”, disse Moro. 

Questionado por que manteve contato com os procuradores via mensagem de texto de aplicativo, Moro afirmou que “é algo normal”. “Veja, os juízes conversam com procuradores, conversam com advogados, conversam com policiais. E isso é algo normal. Se houve alguma coisa nesse sentido (de direcionamento), são operações que já haviam sido autorizadas e isso é questão de logística de saber como fazer”, declarou o ministro.

No vídeo, Dallagnol disse que a Lava Jato sofreu um “ataque gravíssimo”. Segundo ele, um “criminoso” teria se passado por jornalistas e por procuradores e invadido celulares. Em nota, a força-tarefa da Lava Jato fez relato semelhante. Dallagnol disse temer que a atividade criminosa “avance agora para falsear e deturpar fatos”. 

Ele afirmou que integrantes da força-tarefa não reconhecem a “fidedignidade dessas mensagens que foram espalhadas”, embora concorde que elas “podem gerar algum desconforto em alguém”. Ao afirmar ser “normal” a conversa entre juízes, procuradores e advogados “sem a presença da outra parte”, disse que isso só seria problemático se houvesse “conluio ou quebra de imparcialidade”.

Para Dallagnol, provas apresentadas contra Lula são robustas

‘Teoria da conspiração’. Para Dallagnol, eram “robustas” as provas apresentadas pelo Ministério Público na denúncia do caso do triplex, que resultou na condenação e prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Essa robustez ficou evidenciada com a concordância de nove julgadores em três instâncias diferentes.”

O procurador classificou as acusações de partidarismo da Lava Jato como “teoria da conspiração que não tem base nenhuma”. E lembrou que a força-tarefa já acusou políticos de vários partidos. Segundo ele, a operação tem o compromisso atuar “de modo técnico, imparcial e apartidário em favor da sociedade brasileira”.

Ao falar sobre o motivo pelo qual foi contra Lula conceder entrevista, disse que o entendimento da força-tarefa é de que “a prisão de uma pessoa em regime fechado restringe o direito dela de se comunicar com a imprensa”.

Lava Jato fala em ‘intuito hediondo’

A força-tarefa da Operação Lava Jato afirmou, em nota, que seus procuradores foram alvo de “ação criminosa de um hacker que praticou os mais graves ataques à atividade do Ministério Público Federal”. Segundo o comunicado, não assinado, o hacker se aproveitou de “falhas estruturais na rede de operadoras de telefonia móvel” para clonar números de celulares dos procuradores.

“O modo de agir agressivo, sorrateiro e dissimulado do criminoso é um dos pontos de atenção da investigação”, afirma o texto. “Aproveitando falhas estruturais na rede de operadoras de telefonia móvel, o hacker clonou números de celulares de procuradores e, durante a madrugada, simulou ligações aos aparelhos.” 

Segundo a força-tarefa, o hacker “sequestrou identidades, se passando por procuradores e jornalistas em conversas com terceiros no propósito rasteiro de obter a confiança de seus interlocutores e, assim, conseguir mais informações”. A nota diz ainda que foram identificadas tentativas de ataques a familiares próximos de procuradores, “o que reforça o intuito hediondo do criminoso”.

O texto afirma que a Procuradoria passou a investigar tentativas de ataques a membros do Ministério Público, sobretudo procuradores da Lava Jato, em 14 de maio. “As investigações nos diversos âmbitos prosseguem.”

Foi a segunda nota divulgada pela operação desde que o site The Intercept Brasil revelou supostos diálogos entre Moro e Dallagnol. No primeiro texto, a força-tarefa defendeu a lisura e a imparcialidade da operação./GREGORY PRUDENCIANO E KLEITON RENZO E THAISE ROCHA, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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