‘Não somos ditadura que infiltra gente para saber das coisas’, afirma ministro

Titular da Secretaria-Geral da Presidência diz que monitoramento dos portos via serviço de inteligência atende a questões econômicas, e não políticas

Isadora Peron e Daiene Cardoso - atualizado às 7h

10 Abril 2013 | 14h57

Responsável no governo da presidente Dilma Rousseff por intermediar o diálogo com movimentos sindicais e sociais, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, disse ontem ao Estado que o monitoramento de trabalhadores portuários feito pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi motivado por razões econômicas, não políticas. Segundo Carvalho, o governo não é uma "ditadura" para fazer "arapongagem" de movimentos sindicais.

 

"Nós não precisamos de arapongagem sobre o movimento sindical porque temos um diálogo com o movimento o tempo todo. Nós não somos um governo repressivo, da ditadura, que tem de infiltrar gente para saber das coisas", afirmou o ministro, que cumpriu agenda ontem na capital paulista.

 

O Estado revelou na semana passada que a Abin, a pedido do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência (GSI), vigiava os passos de sindicalistas no Porto de Suape contrários à Medida Provisória 595, conhecida como MP dos Portos. Esses dirigentes sindicais, ligados à Força Sindical, encontraram-se com o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), provável candidato à Presidência em 2014, e um dos maiores críticos à MP dos Portos. Carvalho rechaçou a tese de que a Abin estaria supervisionando politicamente o movimento sindical no Estado de Campos.

 

Na ocasião da publicação da reportagem, o general José Elito, ministro-chefe do GSI, divulgou nota dizendo que a informação era "mentirosa". Na terça-feira, o jornal revelou documento sigiloso que comprova a ação da Abin em 15 Estados litorâneos, incluindo Pernambuco.

 

Os trabalhadores do setor convocaram uma greve de 24 horas para a próxima quinta-feira, dia 18. O ato também será um protesto contra as ações da Abin.

 

Defesa. Carvalho não quis comentar a atitude do general Elito - que prometeu ir ao Congresso dar explicações sobre o assunto -, mas fez uma defesa veemente da atuação da agência de inteligência. "Porto é uma coisa que não pode parar. Então, era mais do que legítimo que a Abin passasse para nós as informações dos riscos: ‘Olha, pode paralisar o porto’. E a repercussão disso na economia, qual é?", justificou.

 

Ao assumir a preocupação diante do risco de uma greve geral dos trabalhadores, Carvalho disse que é obrigação do governo cuidar das áreas estratégicas. "Qualquer país tem que vigiar. O governo tem que ter informações sobre áreas que são estratégicas. Porto não é uma brincadeira. A questão portuária tem uma repercussão econômica", disse.

 

Segundo ele, o monitoramento realizado pela Abin teve o objetivo de "manter o governo informado sobre os riscos para a questão da infraestrutura portuária". O ministro também disse que qualquer país do mundo precisa ter um mínimo serviço de informações para trabalhar adequadamente: "Um governo que não trabalha com inteligência é cego".

 

Para relativizar a atuação da Abin neste caso, Carvalho citou outro exemplo de utilização do serviço de inteligência. Segundo ele, a agência está monitorando a movimentação de grupos indígenas que tentam impedir a construção do complexo hidrelétrico Tapajós, no oeste do Pará. "É evidente que eu preciso saber se os trabalhadores estarão seguros ou não, se vou precisar colocar a Força Nacional de Segurança."

 

Mais conteúdo sobre:
AbinSuapeCarvalho

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.