Não se pode criticar Chávez por falta de democracia, diz Lula

Presidente defendeu adesão da Venezuela ao Mercosul e minimizou bate-boca entre Chávez e rei da Espanha

Tânia Monteiro, do Estadão,

14 de novembro de 2007 | 17h32

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a defender o ingresso da Venezuela no Mercosul, nesta quarta-feira, 14, e afirmou que no País não falta democracia. "Podem criticar o Chávez por qualquer outra coisa. Inventam uma coisa para criticar. Agora, por falta de democracia na Venezuela, não é."   Veja também:   Vídeo do bate-boca entre Chávez e o rei da Espanha Para federação empresarial, reforma de Chávez é 'ato ilícito' Chávez pode vigiar empresas espanholas após crise diplomática Oposição diz que conselho eleitoral venezuelano favorece 'Sim' Ex-premiê espanhol evita falar do caso Chávez Chávez diz que rei deveria pedir desculpas   E continuou: "O que não falta no país é discussão. Democracia é assim: a gente submete aquilo que acredita, o povo decide e a gente acata o resultado. Se não, não é democracia", afirmou. Lula lembrou que está há cinco anos no poder, vai chegar a oito e, nesse período, acompanhou duas eleições para prefeitos. Na Venezuela, ressaltou, já houve três referendos, três eleições, quatro plebiscitos.   Bate-boca   Sobre o bate-boca entre o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e o Rei Juan Carlos, da Espanha, ocorrido semana passada no Chile, Lula diz que não ficou constrangido. Para o presidente, não houve humilhação a Chávez. "Somos um conjunto de países democráticos que fizeram uma reunião democrática onde todos têm o direito de falar, tema livre, aquilo que lhe interessa".   Para ele, não houve exagero por parte de Chávez, e acrescentou: "houve uma fala do Chávez que o rei achou que era demais, que era uma crítica ao ex-primeiro ministro da Espanha(Jose maria Aznar), que tinha o apoiado o golpe (tentativa de golpe na Venezuela, em 2002). E a diferença, qual é? É que o rei estava na reunião. E quem falou 'cala-te' foi o rei. Ou seja, não foi um de nós. Entre nós, divergimos muito."   O presidente Lula citou outras divergências que participou da reunião do G-8, com a primeira ministra Angela Merk e dizer que do jeito que estava acontecendo aquela reunião não lhe interessava participar. "Do jeito que estava acontecendo, eu não tenho interesse de ir porque não estou disposto a ser tratado como cidadão de segunda classe. Ou fazemos uma reunião para discutir os problemas do mundo, ou não fazemos", ensinou.   Comparações   Lula voltou a comparar a continuidade de Chávez no governo com a permanência de outros dirigentes europeus em seus cargos. "Por que ninguém se queixa quando Margareth Thatcher (primeira ministra da Inglaterra por dois mandatos) ficou tantos anos no poder?", indagou.   Diante da observação de repórteres de que eram situações distintas, o presidente reagiu: "distintos, por quê? É continuidade. Não tem nada de distinto. Muda apenas o sistema. Muda apenas de regime presidencialista para parlamentarista. Mas o que importa não é o regime, é o exercício do poder."   Lula passou, então, a citar o nome de outros chefes de governo que ficaram por muitos anos em seus cargos. "Ninguém se queixa do Felipe Gonzalez (ex-primeiro ministro espanhol), do Miterrand (François Miterrand, ex-primeiro ministro da França) e nem do Helmut Kohl (ex-primeiro ministro da Alemanha), que ficou por volta de 16 anos no poder."   Para o presidente, é preciso respeitar a autonomia e soberania de cada país. "Se nós dermos menos palpites nas regras do jogo de outros países e olharmos o que estamos fazendo, todos nós sairemos ganhando. Mas se a gente achar que pode dar palpite em tudo e que só pode acontecer no mundo o que a gente quer, seremos eternamente infelizes." E prosseguiu: "é melhor que os outros decidam os seus destinos e nós decidamos os nossos".    

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