‘Não se esfaqueiem’, pede Lula a petistas em São Paulo

Ex-presidente vê que PT pode perder disputa municipal se não deixar ringue e se unificar

Vera Rosa , O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2011 | 15h58

BRASÍLIA - Fiador da pré-candidatura do ministro da Educação, Fernando Haddad, à Prefeitura de São Paulo, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva mostra preocupação com os rumos da briga na capital paulista.

Empenhado em evitar a prévia para a escolha do candidato à sucessão do prefeito Gilberto Kassab (futuro PSD), Lula tem dito, a portas fechadas, que o PT corre o risco de perder novamente se não deixar o ringue nem tiver "maturidade" para se unificar.

"Não é fácil ganhar a eleição em São Paulo. Espero que vocês não se esfaqueiem, senão a gente perde", afirmou Lula a três pré-candidatos, em conversa na segunda-feira. Ele não quer prévia por avaliar que o desgaste desse processo acaba deixando sequelas na campanha.

Só quem entendeu esse recado, porém, foi a senadora Marta Suplicy. É senso comum no PT dizer que Lula é "como a Bíblia", que cada um interpreta como quer. "Ele me falou que não haverá dedaço", afirmou o deputado Jilmar Tatto. "Lula me disse que fará campanha para quem vencer a prévia com os filiados", insistiu o deputado Carlos Zarattini.

Tatto e Zarattini foram secretários de Marta quando ela era prefeita (2001-2004), mas hoje desafiam a ex-chefe e se apresentam como pré-candidatos.

Na prática, Lula já articula a campanha de Haddad e um amplo leque de alianças para apoiá-lo. Conversou com o deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP), na quinta-feira, e está à procura de um vice para Haddad, com perfil semelhante ao de José Alencar. Político e empresário, Alencar ajudou a eleger Lula em 2002, por diminuir o temor do mercado em relação a ele, e contribuiu para aparar arestas na campanha do segundo mandato, em 2006.

O ex-presidente avalia que o casamento entre o PT e o PMDB em São Paulo, logo no primeiro turno, conseguiria derrotar sem dificuldade o PSDB do governador Geraldo Alckmin ou mesmo o candidato apoiado por Kassab. No seu diagnóstico, em nenhum desses cenários o concorrente tucano será José Serra. Apesar dos afagos na direção do PMDB, Lula sabe que não será fácil atrair o partido do vice-presidente Michel Temer, que já monta a estrutura para lançar Chalita.

Marta na berlinda. No grupo de Marta, hoje rachado, há quem avalie ser preciso "ganhar tempo" para verificar se Haddad vai decolar. Hoje, ele tem 3% das intenções de voto, segundo pesquisa Vox Populi. Nessa sondagem, Marta aparece com 29%, embora seu índice de rejeição seja alto.

A senadora não quer bater chapa com Haddad, mas também não sairá do páreo agora. Nos últimos dias, recebeu telefonemas de aliados, pedindo para que não desistisse, apesar dos apelos de Lula. "Vamos deixar o processo andar porque o panorama ainda está nublado. Cada dia com sua agonia", disse Marta ao Estado.

Mesmo desconhecido do público, Haddad tem conseguido quebrar resistências a seu nome no PT porque ninguém quer se indispor com Lula. Ele planeja sair do Ministério da Educação em março de 2012, para ser candidato, e já conversou sobre isso com a presidente Dilma Rousseff.

Nos bastidores, petistas avaliam que Marta quer uma "compensação" para deixar a disputa e interpretam esse desejo como sendo o Ministério da Educação. Ela nega com veemência. "Quem me conhece sabe que eu não faço isso. Seria inaceitável."

Escanteado por Lula, o senador Eduardo Suplicy, também pré-candidato a prefeito, enviou carta a ele, reclamando por não ter sido convidado para o tête-à-tête com os que postulam a indicação do PT. "Lula quer um nome que consiga passar a marca de 30% da votação do PT em São Paulo. Como na eleição para o Senado, em 2006, eu tive 51,37% dos votos na capital, talvez ele não precise conversar comigo para solicitar que eu desista", provocou Suplicy, sem esconder a mágoa.

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