''Não se corta erva daninha pelo caule''

Sebastião Curió Rodrigues de Moura: oficial do Exército sob o regime militar

Entrevista com

Leonencio Nossa, MARABÁ (PA), O Estadao de S.Paulo

22 de junho de 2009 | 00h00

A Guerrilha do Araguaia, movimento armado na selva contra o regime militar, não marcou a memória dos que viveram nos anos 1970 nas grandes cidades. Nem poderia. A censura impediu que os brasileiros soubessem da existência de uma operação de guerra na floresta amazônica. No entanto, um personagem do lado da repressão, o oficial Sebastião Curió Rodrigues de Moura, o Major Curió, 74 anos, virou mito antes mesmo que a história do conflito fosse revelada com detalhes. Com a redemocratização, Curió pôs a cara para bater e tornou-se o principal representante de uma legião de militares que acompanharam em silêncio a mudança de regime. Passou os últimos 30 anos em duelo com a esquerda, mas sempre recorreu a palavras moderadas para atacar e rebater acusações. Foi como interventor do garimpo de Serra Pelada, nos anos 1980, que o líder populista de direita, como a esquerda o classifica, conquistou "massas" do sul do Pará e do sul do Maranhão, um feito que os adversários não realizaram.O capítulo da história de Curió que mais desperta interesse de aliados e inimigos, no entanto, é anterior: é o Araguaia. "Esta é a parte mais delicada", diz. Numa franqueza que impressiona até quem o conhece há anos, afirma: "Num arrozal, quando se capina, não se corta a erva daninha só pelo caule. É preciso arrancá-la pela raiz, para que não brote novamente." Admite, parecendo falar para os companheiros de farda, que "este é o momento de revelar a história".O senhor concorda que o fim da guerrilha coincidiu com o início do latifúndio e o aumento da pobreza no sul do Pará?No final do relatório da Sucuri eu escrevi: a repressão por si aniquila, destrói, acaba com o movimento guerrilheiro. Mas não acaba com o movimento da subversão. Isso só se conseguirá com ações de governo em benefício da população. Foi exatamente o que não ocorreu. É preciso entender também que não estamos falando do Pará de hoje, mas do Pará de sempre, um Estado sempre marcado por conflitos sociais.Que lições o combate à guerrilha trouxe para as Forças Armadas?As Forças Armadas não conheciam a Amazônia. Tivemos muitos ensinamentos. Eu fui para o Araguaia com o curso de guerra na selva. Mas aprendi muito com os guias, os mateiros. Também desenvolvemos ensinamentos estratégicos, de como lidar com a população. Nas primeiras duas campanhas, os guias não conduziam as patrulhas para alcançar os objetivos. Eles davam voltas na selva, não estavam interessados em levar as patrulhas aos locais onde estavam os guerrilheiros. Já na terceira campanha tivemos uma equipe de mateiros que trabalhou de forma correta. Passamos a conversar com os guias, dar o valor que eles possuíam. É preciso ter humildade. Com os guias, aprendi a sobreviver com um pedaço de rapadura e fígado de uma jabota. Aprimorei o que aprendi nos bancos acadêmicos. Eu fui preparado para a guerra, mas a prática é um pouco diferente. O que é uma guerra de guerrilha?Uma guerra convencional já é um terror. Pode haver alguma surpresa, mas é difícil ser surpreendido na retaguarda. Já numa guerra de guerrilha você não sabe quem é o inimigo. É uma guerra feia, terrível. Só o terreno, a selva, é um enorme obstáculo. Não é fácil se movimentar no igapó, passar 15 dias sem tomar banho, sem se alimentar direito.Quais os erros do PC do B?O PC do B deslocou para a área de guerrilha pessoas que tinham curso na China, mas sem experiência em combate e sobrevivência na selva. As lideranças do partido se deslocaram para a área, a Elza Monnerat e o João Amazonas, mas logo no início abandonaram aquela juventude na mata. A Comissão Militar da guerrilha, cujo chefe era o Maurício Grabois, não tinha planejado contato com o partido fora da área. Foi uma aventura do partido. Amazonas e Elza fugiram e deixaram cada um por si e Deus para todos. E os erros das Forças Armadas?Na primeira campanha, não tinha um comando centralizado. Era cada equipe por si, chegando ao ponto de ocorrer choques entre militares. Na segunda campanha, mandaram tropas constituídas de elementos não especializados em selva, vindas de Brasília e de Goiânia, que nunca viram a floresta. Depois, as Forças Armadas cometeram o erro político de mascarar o movimento contra a guerrilha como uma manobra militar. E o erro mais grave: montaram uma operação de envergadura sem organizar um trabalho de informações. Não se sabia quem era o inimigo. Então, foi organizada a Operação Sucuri. Eu fui o coordenador na área, na linha de frente. Em quase cinco meses de operação, conseguimos saber tudo sobre os guerrilheiros, seus hábitos, seus armamentos. Foi uma das operações mais bem realizadas na América Latina. Por que até hoje é difícil falar sobre essa história? Existia na época o chamado Milagre Econômico, no governo Medici. O "milagre", segundo orientações de cima, tinha de ser preservado. Notícias sobre combates na selva poderiam manchar a imagem positiva da economia brasileira e do País no exterior. Depois, a guerrilha preocupava o governo porque o Partido Comunista tinha sim o objetivo de criar uma área livre a serviço do bloco comunista internacional, cuja ponte com o Brasil era a Albânia. A China, que formou os combatentes, não queria aparecer diretamente. Houve ordem expressa para que tudo ficasse em sigilo. Há muitas versões distorcidas, por má fé ou simples desconhecimento.Qual é o momento de uma história ser revelada?É o atual momento. Por quê? Quem participou dos combates por força das circunstâncias, cumprindo uma missão de Estado, está agora com a idade cronológica um pouco avançada. Estou com 74 anos, forte graças a Deus, mas acho que é hora de dar conhecimento. Como sairá um livro sobre a minha história, eu tinha de abrir o arquivo antes. Não me julgo dono da verdade, mas sei muita coisa porque vivi. Como foi o combate travado pelo senhor e pelo agente Lício Maciel com a guerrilheira Lúcia Maria de Souza, a Sônia?Estávamos numa patrulha na mata. Por volta de 17 horas, a luz começou a cair. Encontramos na beira de um pântano um par de coturno. Ouvimos uma conversa e assovios. Uma das vozes era de mulher. Sônia voltou inesperadamente, talvez para apanhar o coturno, e gritou para os companheiros de guerrilha, pensando que um deles tinha levado o calçado por brincadeira. Toda a patrulha estava dentro do pântano. Com o aumento do volume da voz de Sônia, Lício deu alguns passos à frente, a dez metros da gente. Foi quando a viu. Com água na cintura, ele gritou: "Quieta!". Sônia pôs as duas mãos para cima. Na verdade, apenas uma mão estava na cabeça, com a outra ela disparou o primeiro tiro contra ele. Os demais da patrulha abriram fogo. A Sônia voltou a atirar. De onde eu estava não conseguia enxergá-la. Atirei em dois vultos que escaparam por uma moita de açaizal, possivelmente dois companheiros dela. A penumbra dificultava a visão. Depois, eu gritei: "Cessa, cessa, cessa!", para prestar socorro a Lício. Olhei, o meu cotovelo direito, que estava ensanguentado. Eu, um sargento e um soldado seguimos mais à frente, no rumo de um murmúrio. Os galhos e folhas atingidas pelas rajadas ainda se desprendiam dos troncos, formando um eco. Começou o silêncio. Era quase noite. Ouvimos gemido. Logo depois, vi um rastro de corpo num barranco do igapó. Mais à frente, um revólver 38 no chão. Ela estava adiante, de bruços. Usava camiseta e bermuda curta, bem acima do joelho. As pernas claras, de quem não via o sol há tempo, estavam picadas por insetos. Ela ainda suspirava. (Sônia morreu no combate.) As Forças Armadas pagaram um preço por não contar a história da guerrilha? Pagaram. Tudo deveria ser contado na época, os motivos das operações, os riscos que o País corria. Só o Estadão furou essa estratégia do silêncio durante os combates. Mas quem pagou um preço alto nestes anos todos fui eu. Entrei no Araguaia cumprindo uma missão. Depois coordenei o garimpo de Serra Pelada. Só por força das circunstâncias fiquei mais conhecido entre os companheiros que participaram dos combates também cumprindo missão constitucional.Por que matar prisioneiros? Esta é a parte delicada. Na terceira campanha, a Operação Marajoara, os guerrilheiros já não tinham armas. Por que matá-los?Não estavam desarmados, estavam sem rumo. Por que matar prisioneiros?Todos os combatentes foram mortos em combate? Não. Exemplos típicos são os casos da Dina e da Tuca. Elas foram feitas prisioneiras por mim e entregues às autoridades.Que autoridades foram essas?Me reservo no direito de não citar nomes. Mas pelos dados do meu arquivo você poderá tirar suas conclusões. O que aconteceu com a Dina e a Tuca? Morreram. A ordem superior era não deixar rastros da guerrilha, para poupar o Brasil de uma guerrilha, de uma Farc, um movimento montonero (guerrilha argentina), um Sendero Luminoso. Qual era o perfil dos guerrilheiros?Porcentual considerável era de jovens idealistas que lutavam por uma sociedade mais justa, cujos objetivos não se diferenciavam dos objetivos das Forças Armadas. Só que fizemos caminhos ideologicamente diferentes para atingi-los. Não eram bandidos. Não eram mesmo. A cúpula da guerrilha era de raposas velhas. Como o senhor, que obteve tantas vitórias militares, se sente como um derrotado pela história? As Forças Armadas cumpriram uma missão constitucional, preservaram as instituições, a independência e a soberania da pátria e não permitiram um Estado independente no Brasil, o que no bojo da guerra de guerrilhas extirpou momentaneamente uma ideologia adversa, o comunismo. Então não me sinto derrotado. Mas nem a Constituição de 1967, outorgada na ditadura, mandava matar. Segundo a Lei de Newton, para toda ação há uma reação com a mesma força e intensidade no sentido contrário. Lembre-se de Stalin na União Soviética e de Fidel e seu paredão em Cuba. Os guerrilheiros do Araguaia realizaram execuções sumárias. É o caso de Pedro Mineiro, executado por cinco guerrilheiras, de Rosalindo, justiçado pela guerrilha, e do camponês Osmar. Mas uma centena de pessoas maltrapilhas tinha a mesma força dos cinco mil homens das Forças Armadas?Na terceira campanha eram 150 homens de forças especiais, preparados e bem armados. Se a guerrilha não fosse interceptada pelas Forças Armadas no estágio em que se encontrava, as centenas de apoios aliciados na massificação e no proselitismo formariam hoje uma Farc. Não era meia dúzia de pessoas. Tanto que na segunda campanha 3.200 homens das Forças Armadas não tiveram êxito. Os meus relatórios comprovam o trabalho de massificação: cerca de 200 moradores foram aliciados pela guerrilha. Uma guerrilheira como a Áurea, por exemplo, uma simples estudante de 24 anos, e ainda por cima presa, oferecia risco?A mulher pelo seu valor hoje ocupa funções delicadas que requerem alta competência como pilotar um jato, comandar as tropas, presidir tribunais de júri, e ela armada se equipara a um grande guerreiro, haja vista que hoje as Forças Armadas têm exímios combatentes do sexo feminino. Áurea era um exímio combatente. Na base de Xambioá, onde ficou detida, Áurea não era mais uma combatente. Era uma prisioneira do Estado. Não há dados concretos de fria execução na guerrilha. Os papéis do arquivo do senhor podem levar à conclusão de que houve execução. Eu disse que não houve fria execução. Num arrozal, quando se capina não se corta a erva daninha só pelo caule. É preciso arrancá-la pela raiz, para que não brote novamente. Quem é:Sebastião CurióÉ tenente-coronel da reserva do Exército, foi prefeito de Curianópolis (PA) pelo PMDB,mas foi cassado pelo TSEEx-agente do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), coordenou o garimpo de Serra Pelada e foi deputado federal pelo extinto PDS, sigla de apoio ao regime militarCUSTO: "Quem pagou um preço alto nesses anos todos fui eu. Entrei no Araguaia cumprindo uma missão"AÇÃO: "A repressão por si aniquila, destrói, acaba com o movimento guerrilheiro. Mas não com a subversão"ERROS: "Montaram uma operação de envergadura sem organizar um trabalho de informações"

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