Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

'Não queríamos vingança. Só Justiça', declara irmão de vítima de Battisti

Para Maurizio Campagna, 'Lula não é um homem honesto' e 'também está preso hoje'

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2019 | 16h43

GENEBRA - Quarenta anos depois da morte de seu irmão, Andrea Campagna, pelas mãos de Cesare Battisti, Maurizio Campagna se diz “aliviado”. Em entrevista ao Estado por telefone, ele insiste que, ao ver as imagens da chegada do italiano pela TV, lembrou do irmão. Mas garante: não tem um sentimento de vingança.  

Andrea Campagna foi uma das vítimas dos assassinatos cometidos por Cesare Battisti. Andrea era um policial que havia realizado a prisão de companheiros de Battisti. Em 1979, ele foi abatido com cinco tiros pelo italiano e um outro homem. Battisti foi condenado à prisão na Itália por esse crime. “Quatro décadas depois, o ciclo da vida está encerrado”, disse. 

Como estão vivendo as famílias das vítimas de Battisti neste momento?

Estamos aliviados. Quero lembrar, antes de mais nada, que Battisti fugiu da Justiça. Ele matou quatro pessoas. Meu irmão foi morto por ele com cinco tiros por parte de uma pistola magnum. Minha família está hoje muito satisfeita. Quatro décadas depois, o ciclo da vida está encerrado. Foi em 1979 que ele foi morto, em 1993 a Justiça o condenou à perpetuidade e agora, 40 anos depois, Battisti começa a cumprir sua pena. Agora o ciclo dessa novela está encerrado e minha família tem o sentimento de que a Justiça foi feita. 

O que o senhor hoje deseja?

Não queríamos vingança. Só Justiça. E ela foi feita. Se ele ficar um dia, um ano ou 30 anos, para mim tanto faz. Cabe à Justiça determinar. Se a Justiça disser que ele pode ser livre e que pagou pelo que fez, não vejo problema. 

Quando o senhor ouviu que ele foi preso no fim de semana, o que o senhor pensou?

Quando ouvi a notícia de que a prisão ocorreu na Bolívia, fiquei preocupado. Vi que ele havia sido capturado na Bolívia e pensei: ah não. Vai ser muito difícil extradita-lo para a Itália. Levaremos mais 20 anos de uma novela sem fim. 

Por qual motivo o senhor acredita que o voo de Battisti não passou pelo Brasil?

Não sei. O que sabemos é que o governo italiano queria que a transferência ocorresse o mais rapidamente possível. Salvini preferia isso, entre Bolívia e Itália diretamente. 

Por todos esses anos, um dos argumentos da defesa de Battisti era de que ele sofria uma perseguição política. 

Olha, Battisti matou quatro pessoas. Não acredito que o grupo terrorista do qual ele fazia parte era de fato de uma vertente política comunista. Eles eram apenas criminosos, delinquentes. Os homicídios não tinham nada de político. Eles mataram comerciantes. O que tinha de político em matar um comerciante? Sim, meu irmão era um policial. Mas não era um investigador. Era um garoto jovem de 24 anos. Battisti matou meu irmão de forma covarde. Ele matou um garoto. O que tinha de político nisso? 

Como o senhor avaliou a decisão do governo de Lula de rejeitar a extradição de Battisti?

Lula também está preso hoje e condenado. Lembro-me que um dos argumentos era de que o Brasil não mandaria Battisti para a Itália por conta do sistema maluco que teria o nosso país, injusto. E por isso seria mantido no Brasil. Lula não é uma pessoa honesta. Não era sincero o que dizia. A Itália é uma democracia. Depois do fascismo, não tivemos mais um governo militar. Sim, tivemos terrorismo. Mas a Justiça funciona. Ainda acredito que se Lula lesse o processo de Battisti do Tribunal italiano, ele entenderia que não poderia tomar uma decisão política de mante-lo no Brasil. Acredite em mim: não há motivo político para não entrega-lo à Justiça. Os membros daquele grupo de pessoas nos anos 70 eram delinquentes. Hoje, as famílias daqueles mortos nas mãos de Battisti estão aliviadas. 

O que o senhor achou da decisão do Brasil de rever a situação de Battisti? 

Tenho muitos amigos no Brasil. E recebi ao longo dos anos muitos emails e mensagens de apoio da parte do Brasil. Só posso agradecer a todos, inclusive ao governo. Bolsonaro foi eleito em uma democracia. Hoje, ele governa por quatro anos. Se não fizer as coisas bem feitas, ele sai nas próximas eleições. Tchau. Na Itália, temos Salvini no governo e os demais partidos o acusam de populismo. Sim, se ele não fizer nada de bom, tchau! Assim é a democracia.  

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