WASHINGTON ALVES/ESTADÃO
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Romeu Zema: ‘Não podemos ser dogmáticos, isso seria um retrocesso'

Governador de Minas defende a participação de deputados da base na Assembleia na escolha de nomes para ocupar cargos públicos

Entrevista com

Romeu Zema, governador de Minas Gerais

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

25 de fevereiro de 2019 | 05h00

ENVIADO ESPECIAL / BELO HORIZONTE - Primeiro nome do Partido Novo a ser eleito para comandar um Estado na esteira da onda de renovação política que marcou as eleições de 2018, o governador de Minas, Romeu Zema, vai delegar aos deputados de sua base na Assembleia Legislativa a prerrogativa de escolher técnicos para comandar as superintendências regionais de Saúde e Educação, antigos feudos da velha política mineira.

A decisão resvala no discurso do Novo que defende processos de seleção para o preenchimento de cargos públicos. De acordo com Zema, o objetivo é aproveitar o “conhecimento” dos deputados em suas regiões. “Não podemos ser dogmáticos. Isso seria um retrocesso”, disse ele em entrevista ao Estado, a primeira desde que assumiu o governo.

Zema também falou sobre a crise financeira no Estado, cujas dívidas com fornecedores, 13.º de 2018 e repasses a municípios somam R$ 24 bilhões. “O (repasse) atrasado (cerca de R$ 1 bilhão) não sabemos quando vamos pagar”, disse.

Em relação ao rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, afirmou que houve “pirotecnia” de setores do poder público e que a tragédia não foi um problema ambiental, mas de engenharia.

Lideranças do Novo têm criticado a presença de tucanos em cargos-chave do seu governo e a dificuldade de interlocução com o senhor. Existem algum desalinhamento entre o seu governo e a direção do partido?

Não. De jeito nenhum. O diretório nacional participou ativamente da escolha do secretariado. Nossa interlocução tem sido a melhor possível. Sobre a questão de pessoas do PSDB estarem no governo, vale lembrar que há também pessoas de outros partidos até pelo motivo de o Novo ser recente, pequeno e nós mesmos pregarmos que não queremos agir como os outros e nos transformarmos em empregadores de quem é do partido. Estamos totalmente alinhados com o que o Novo prega, que é a meritocracia. As pessoas foram escolhidas e coincidiu que o PSDB, que é um partido mais antigo e que teve quadros técnicos mais relevantes, ter tido mais pessoas escolhidas. Poderíamos ter feito como as velhas práticas políticas e trazido pessoas do Novo. Com certeza, o secretariado não teria ficado à altura do que ficou.

O senhor fez críticas duras ao PT e ao PSDB durante a campanha. Nomear para a administração estadual filiados ao PSDB não é uma contradição?

De forma alguma. Muito mais do que dominar o País nós queremos é mudar o País. Isso é o que tem que ficar claro. Somos um agente indutor de mudanças e que não quer se apoderar da máquina pública. Queremos mudar o que existe.

Houve pressão do Novo para que nomeasse quadros da sigla?

Não houve. É lógico que há alguma pressão pequena de uma ou outra pessoa que contribuiu com as ideias do Novo e, desrespeitando os próprios ideais do partido, quer alguma coisa para si ou algum conhecido.

Outro motivo de críticas é a manutenção do Germano Vieira (ex-secretário no governo do PT) na Secretaria de Meio Ambiente. Por que ele foi mantido?

Mesmo que ele não tivesse sido selecionado, estaria na secretaria porque é funcionário de carreira. Conversando com várias entidades ligadas à indústria, agricultura e mineração, elas foram unânimes em afirmar que, após o acidente de Mariana, foi quando o Germano assumiu que houve um certo controle. Ele se mostrou extremamente capacitado.

Foi na gestão dele que ocorreu a revisão das regras e rebaixou a classificação de risco para barragens como a de Brumadinho.

Existe uma confusão muito grande em relação à Secretaria do Meio Ambiente de Minas Gerais e no Brasil todo. Vamos supor que você tem uma propriedade rural e quer construir um prédio. Aí o órgão ambiental autoriza você a desmatar mil metros quadrados, você faz o prédio e amanhã este prédio desaba. É um problema de engenharia ou ambiental? É de engenharia. O que aconteceu aqui em Minas foi que um problema de engenharia causou um desastre ambiental e uma tragédia humana. Para as barragens cabe fiscalização da Agência Nacional de Mineração. Para todos os efeitos, a população e a mídia têm crucificado a área ambiental que tem a responsabilidade de analisar o impacto da barragem sobre o ambiente. Ela não tem poderes para ir lá e avaliar a solidez da barragem.

Mas quem fixa os parâmetros para autorização da construção é a área ambiental, não é?

A área ambiental deixa você construir o prédio, igual eu te falei.

A mudança nas regras de classificação de risco não diminui o controle do Estado sobre a segurança sobre as barragens?

Vamos lembrar aqui que a barragem de Brumadinho foi autorizada em 1976. Desde o acidente de Mariana ela não recebia rejeitos. Até falo que o caso de Brumadinho é um cadáver que saiu andando. Ela estava desativada havia três anos e, de repente, tivemos este acidente. Sabemos que embaixo da terra ocorre mais umidade, mas é um caso típico do que era inesperado. Não estou defendendo nem acusando ninguém aqui, mas o que está em xeque e vamos ter que rever são os critérios da própria engenharia de construção de barragens. Depois deste acidente de Brumadinho nenhuma barragem recebeu a classificação de segura. Ninguém quer assinar mais nada para não ficar com a batata quente na mão.

A prisão dos engenheiros levou a este cenário?

Estou aguardando o final do processo. Sei que nestes momentos em que as emoções estão afloradas parece que algumas áreas do poder público querem demonstrar para a população que agiram ou que fizeram algo. Mas o que cabe neste momento é analisar a real causa do que ocorreu, e não pirotecnia, que, às vezes, ocorre em alguns setores do poder público, infelizmente.

O senhor fala do Ministério Público?

Não quero citar ninguém. São vários. Aí tem de todas as esferas. Até do Executivo. Tem que analisar. Quando um avião cai você não tem que ficar apontando o dedo para ninguém, tem que descobrir por que aquilo aconteceu para que nunca mais ocorra. Talvez em Mariana o problema tenha sido este. Precisou acontecer outra vez para que tenha um aprendizado. Ficar gritando “culpado”, “prende”, “bem feito” muda alguma coisa na legislação ou na técnica de construir barragem? Não.

A impunidade não é um motivo para que este tipo de coisa continue a acontecer?

Certamente. Se houver culpados, que sejam punidos com todo o rigor que a lei determina.

Germano foi indicado ao senhor pela Fiemg?

Nós escutamos várias entidades sobre vários secretários. Com ele houve realmente um posicionamento favorável de várias delas. Nenhuma falou que este cara é um incompetente.

Alguém pediu ao senhor que ele fosse mantido no cargo?

Não. Só falaram que, se ele fosse mantido, estaria 'ok', porque ele fez um bom trabalho.

O senhor pretende fazer algum esforço para que sejam revistos os valores dos royalties do minério que o Estado recebe?

Não. Eu julgo que os ajustes de contas do Estado devem ser via redução de despesas, e não ficar repassando nossa conta para alguém pagar.

Qual o prazo para colocar em dia a folha de pagamento e os repasses para os municípios?

Quanto aos municípios, os repasses têm sido feitos pontualmente desde o dia 1.º de fevereiro. O atrasado (cerca de R$ 1 bilhão) não sabemos quando vamos pagar, porque para cumprir o corrente já é um sacrifício gigantesco que vai nos deixar em estado de total penúria. Quanto à folha, se for ágil o processo de adesão ao plano de recuperação fiscal junto ao Tesouro Nacional, é possível que em um ano a gente coloque em dia. Mas temos o problema do 13º. Como tivemos que assumir o do ano passado, temos um mês a mais de salário para pagar em 2019.

Apesar do discurso contrário a nomeações políticas, o senhor anunciou que deputados poderão indicar quadros técnicos para as superintendências regionais de Saúde e Educação. O Novo vai ter de flexibilizar suas propostas para se adaptar à realidade de administrar um Estado do tamanho de Minas Gerais?

Sou totalmente contrário a qualquer tipo de radicalismo ou de postura de quem se acha dono da verdade. Nosso objetivo é sermos protagonistas de uma mudança cultural no setor público e não é de um dia para o outro que vamos conseguir isso. Vamos ter alguns momentos como este das superintendências regionais de saúde e educação, até por causa do conhecimento de políticos que já estão aí há muito tempo e sabem quem é bom e quem é ruim e que podem colaborar. Não podemos ser dogmáticos, isso seria um retrocesso.

O senhor disse que é contra radicalismo, mas o Novo defende mudanças radicais.

Não considero, não. Considero meritocrática e só. No caso das superintendências regionais, vai ter um processo seletivo no qual serão selecionados dois ou três nomes e a classe política vai depois indicar qual desses nomes é o mais conveniente para eles. Se for alguém ruim, nós não vamos aceitar, mas vamos dar a prerrogativa de eles participarem. Não podemos nos dar ao luxo de falar que vamos escolher quem é o superintendente e o deputado ficar sabendo depois.

O fato de o senhor ter se associado à candidatura de Bolsonaro durante a campanha gerou algum atrito com o partido ou com João Amoêdo, presidenciável do Novo?

Nenhum atrito, nenhum mal-entendido. O que houve na ocasião do debate (da TV Globo) foi que eu acabei sendo infeliz na frase e cometendo um mal-entendido. Quase todos os candidatos a deputado do PSL me apoiaram aqui em Minas Gerais. Eles não queriam apoiar ninguém do PT ou do PSDB e vieram para mim de livre e espontânea vontade. E, no debate, eu deveria ter dito que todo mundo que vota no João Amoêdo e no Jair Bolsonaro está votando em mim, mas não falei isso, dei a entender que era para votar no Bolsonaro.

Como o Novo deve se comportar em relação ao governo Bolsonaro?

Eu, pessoalmente, tenho visto as medidas do governo Bolsonaro como extremamente acertadas na área econômica e tenho dado meu total apoio à reforma da Previdência. Mas o Partido Novo tem uma postura um tanto quanto distinta em alguns pontos. Não entro em detalhes porque não sou parlamentar, mas isso vai ser discutido dentro do Congresso.

Qual sua avaliação sobre a condução política do governo Bolsonaro, a demissão de Gustavo Bebianno, a interferência dos filhos?

Vejo como algo que está sujeito a acontecer a qualquer governo. Que seja passageira a crise.

O senhor vem da iniciativa privada. O que mais chamou sua atenção na condução do setor público?

O que mais me faz ficar surpreso é que, ao propor mudanças, muitas vezes nós escutamos que aquela economia de "só R$ 2 milhões por ano" não vai resolver nada para um Estado que tem um rombo de R$ 12 bilhões, dando a entender que não compensa mexer naquilo. Só que com este pensamento não existe solução, porque é de grão em grão que nós vamos resolver o problema. Estamos mostrando que este raciocínio de que tudo é pequeno dentro do Estado é o que, no meu ponto de vista, levou à atual situção que estamos agora. Então vamos ter que fazer o caminho inverso. Tudo o que estamos fazendo é pequeno, mas quando você soma centenas de ações fica grande. Este raciocínio é o que prevalece no setor público, infelizmente. No setor privado há mais critério porque os recursos são muito mais reduzidos e controlados.

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